A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) comemorou ontem o que considerou ter sido ‘‘a maior invasão em série de fazendas na história do País’’. Balanço parcial da entidade, no final da tarde, contabilizava a invasão de 59 propriedades rurais no Dia Nacional de Ocupação de Terra. O Ministério de Política Fundiária admitiu que algumas fazendas foram ocupadas, mas não dispunha de informações precisas de todo o País. Até o início da noite de ontem, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tinha recebido informações oficiais de cinco superintendências estaduais, contabilizando sete invasões.
O porta-voz da Presidência da República, Sérgio Amaral, disse ontem que o presidente Fernando Henrique Cardoso não tinha recebido até o início da noite informações sobre as ocupações em todo o País. Sérgio Amaral afirmou, no entanto, que se forem confirmadas as invasões, isto será considerado ‘‘um ato contra a lei’’, que ‘‘sofrerá consequências’’.
Segundo o balanço parcial da Contag, 5.514 famílias ocuparam 59 fazendas em 11 Estados, até o fim da tarde. Vários presidentes de federações de trabalhadores rurais, de acordo com a confederação, não tinham enviado dados porque estavam em campo ajudando nas ocupações. ‘‘Acho que já chegamos a umas 70 fazendas e garanto que atingiremos as cem que prometemos invadir ainda hoje’’, disse diretor de Política Agrária da Contag, Sebastião Neves Rocha no início da noite.
Já o balanço que o Ministério de Política Fundiária divulgou às 17 horas dizia que 840 famílias tinham invadido três fazendas em Pernambuco, Santa Catarina e Mato Grosso. O ministério informou ainda que tinham ocorrido duas invasões no Espírito Santo e duas no Paraná. De acordo com a Contag, porém, somente em Pernambuco 1.386 famílias teriam invadido 15 propriedades rurais até o início da tarde. Em Minas Gerais, onde a entidade previra a invasão de dez fazendas, 873 famílias teriam invadido 12 propriedades rurais. Na Bahia, segundo a Contag, 1.100 famílias teriam invadido 12 fazendas até o início da tarde. Em Goiás, segundo balanço da entidade, 265 famílias teriam invadido sete propriedades rurais.
Vários estados não teriam promovido invasões, admitiu a entidade. Segundo a própria Contag, não teriam ocorrido invasões em alguns Estados, entre eles Piauí, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Paraíba e Tocantins. Curiosamente, a Contag informou que não ocorreram invasões também em Santa Catarina, mas o Incra informou, no final da tarde, que a entidade promoveu pelo menos uma ocupação no Estado, com 500 famílias.
A Confederação da Agricultura informou os nomes de várias fazendas e os respectivos municípios onde ocorreram ocupações. Segundo assessores da entidade, foram invadidas em Minas Gerais, entre outras fazendas, a Belo Vale, no município de Paracatu, a Rio Claro, em Santa Fé, a Buraco, em Vazante, e a Palestina, em Buritizeiro. Policiais militares de Paracatu informaram no final da tarde que teriam ouvido boatos sobre invasões de fazendas nas proximidades, mas que não tinham sido registradas ocorrências.
A assessoria de comunicação do Ministério de Política Fundiária informou ‘‘pequenas invasões, sem conflitos e sem feridos’’, em todo País. A ação, no entanto, provocou sensíveis mudanças no discurso oficial. Até então, o ministério vinha divulgando que não negociaria com os sem-terra que invadissem fazendas. Ontem, a Ouvidoria Agrária Nacional anunciou que irá negociar caso a caso, com as famílias que invadiram as fazendas.
‘‘Vamos ver se estas áreas são improdutivas e se há decreto de desapropriação, pois cada caso tem que ter um tratamento diferenciado’’, disse o ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva Filho. O ouvidor afirmou que o governo federal não pode negociar o que chamou de ‘‘solução genérica’’ para todas as invasões que eventualmente tenham ocorrido.
Silva Filho, porém, condenou a iniciativa da Contag. ‘‘Tem que haver respeito às leis, que não permitem este tipo de invasão’’, disse. O ouvidor deixou claro a preocupação do governo federal com as ocupações em série, o que pode representar a perda total do controle dos órgãos de segurança sobre a situação nos municípios. ‘‘Não podemos perder o controle sobre as ações de reintegração de posse’’, disse.
A preocupação dos órgãos de inteligência do governo é que as invasões em série acabem gerando conflitos também em série. Atualmente, a Casa Militar da Presidência da República envia relatórios ao presidente e ao Ministério de Política Fundiária com os pontos de conflito no País. Com a invasão em série, o governo teme que não dê tempo de acompanhar todas as desapropriações e conflitos e mortes.
O diretor de Política Agrária da Contag disse que nenhuma família que ocupou fazenda ontem irá abandonar a terra até que o governo federal realize a respectiva vistoria e desaproprie a área. ‘‘A orientação é para que ninguém abandone a terra e espere o Incra fazer desapropriação’’, disse Rocha. A Contag promete divulgar nos próximos dias um levantamento com os nomes de todas as fazendas que foram invadidas desde o início da madrugada de ontem em todo o País.

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