São Paulo, 03 (AE) - Do ponto de vista da doutrina cristã, o domingo de Páscoa é a mais importante de todas as festas do calendário religioso. Mais do que o Natal e a Sexta-Feira da Paixão. A razão disso é clara. Para os doutrinadores, Cristo não revelou que era salvador da humanidade no momento em que nasceu ou morreu como homem, mas, sim, quando ressurgiu dos mortos e confirmou sua divindade. A Páscoa, uma festa essencialmente católica, destina-se a festejar a vitória sobre a morte. Trata-se de uma festa tão relacionada à vida que os antigos cristãos a celebravam ao ar livre.
Mas o tempo, a religiosidade popular e os interesses comerciais mudaram a tradição. No Brasil, por exemplo, as celebrações relacionadas à morte de Cristo, na Sexta-Feira Santa
têm mais apelo entre fiéis do que a Páscoa. E em todo o mundo cristão nenhuma festa é tão prestigiada quanto o Natal.
A Páscoa parece cada vez mais relacionada a ovos de chocolate, coelhinhos, brinquedos e feriados prolongados. Essa mudança preocupa a Igreja Católica, que vem tentando revalorizar a liturgia da ressurreição. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem feito recomendações nesse sentido. Mas os resultados são mínimos.
O arcebispo de São Paulo, o franciscano d. Cláudio Hummes, acredita que as razões desse comportamento são antigas. "Ao longo dos séculos a força do drama da paixão de Cristo causou tanto impacto que ganhou mais destaque na cultura religiosa", diz ele. "É provável que a dor evocada na Sexta-Feira Santa hoje tenha mais relação com a vida das pessoas
numa sociedade tão violenta."
Na opinião do bispo-auxiliar d. Angélico Sândalo Bernardino, a valorização do sofrimento é resquício das tradições religiosas medievais de Portugal e da Espanha. Por outro lado, segundo o bispo, o comércio tenta apropriar-se de todas as festas populares e religiosas para incentivar o consumo. "É um desserviço à sociedade", diz ele.
Nos bairros em que atua, na zona norte de São Paulo, d. Angélico estimula as celebrações da chamada vigília pascal, no sábado à noite. Nas primeiras horas do domingo, uma passeata de jovens sai pelas ruas da região anunciando que Cristo ressuscitou. "É a proclamação da vida, contra o ódio e o egoísmo."
Os católicos ligados à Renovação Carismática, que valorizam o aspecto festivo das celebrações, também tentam mudar o quadro. Um grupo deles tentou organizar uma missa campal no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, neste domingo. Mas não foram adiante porque a área não pode ser emprestada para cultos de uma só denominação religiosa. A celebração teria de ser ecumênica.
Frei Betto, dominicano ligado às pastorais operárias e autor de vários livros, também vê com preocupação o avanço da cultura consumista. "Para estimular o consumo, utiliza-se como isca recursos capazes de nos fazer sentir mais e pensar menos", escreveu num artigo publicado no jornal "O São Paulo", da arquidiocese. Outra pista para entender o tema é que as sociedades se tornam cada vez menos vinculadas às Igrejas. Numa pesquisa realizada em 1994 nos Países Baixos, entre pessoas com terceiro grau, 66% revelaram que não fazem parte de nenhuma Igreja. Estima-se que em 2010 o número passará de 75%.
Com tal afastamento, a festa da Páscoa, que foi apropriada de antigas festas pagãs, pode ganhar novos significados. Nesse movimento, pode ser até que o hábito de presentar com ovos de chocolate se altere. Há um crescente número de pais que prefere oferecer brinquedos aos filhos. Segundo informações da loja de brinquedos ZYX!, de São Paulo, as vendas nessa época registram um aumento de 30%.
Na quinta-feira à tarde, enquanto comprava roupas para seus quatros sobrinhos adolescentes num shopping da zona oeste de São Paulo, Maria Odete Ramos explicou que uma das razões é relacionada a mudanças no comércio. "Presentear com ovos no domingo da Páscoa perdeu parte do encanto, porque agora você encontra esses ovos expostos em todos os pontos de comércio e com semanas de antecedência", diz ela. "É um bombardeio e meus sobrinhos começam a comer muito antes." Diante disso, ela tenta surpreendê-los com outros presentes, como roupas, embora mantenha paralelamente a tradição de comprar ovos.
A Igreja teme que ao longo do tempo a festa da Páscoa perca o significado original, de celebração da vida, e se transforme em mais um dia de troca de presentes.

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