A discussão sobre o consumo de álcool ganhou espaço entre os brasileiros antes mesmo que a lei seca começasse a vigorar em junho desse ano. Mas, assim como no trânsito ele é ''responsável'' por grandes estragos, no corpo humano também - e não só no fígado, como normalmente as pessoas acreditam, mas é fator de risco para o aparecimento de casos de câncer.
O oncologista Clodoaldo Zago Campos, de Londrina, explica que estudos apontam para a relação direta de álcool com pelo menos três tipos de tumores - na cabeça e pescoço, sendo os mais comuns os de língua, palato e garganta, no esôfago, e no fígado, o chamado hepatocarcinoma. ''Este último pelo desenvolvimento da cirrose, que favorece o aparecimento de tumores. A relação com o câncer de mama também existe, por isso, se há histórico familiar, é recomendado cuidado com o álcool''.
O que mais tem peso não é o tipo de bebida, mas a quantidade ingerida e a frequência com que isso acontece. ''Seja cerveja ou cachaça, não importa. A relação é com a dose ingerida. Quem bebe todos os dias tem mais chances de vir a desenvolver algum tumor'', alerta Campos, lembrando que isso acontece a longo prazo, depois de anos de uso contínuo de álcool.
Outro problema, alerta o oncologista Cassio José de Abreu, de Londrina, é a relação do uso de álcool com o cigarro. ''O álcool já é um fator de risco, mas associado com o tabagismo é uma combinação 'explosiva'', alerta.
O uso contínuo do álcool, segundo informações do site do Instituto Nacional do Câncer (Inca), causa outras doenças além do câncer - neurais, mentais, musculares, hepáticas, gástricas e pancreáticas, além de problemas sociais associados à ingestão de bebidas alcoólicas, como acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, faltas ao trabalho e atos de violência.
Abreu lembra que 80% dos casos de câncer estão ligados a fatores ambientais, que incluem, entre outros, hábitos sociais, culturais e de alimentação. ''Ou seja, 80% dos casos de câncer poderiam ser prevenidos com hábitos saudáveis de vida. A probabilidade do aparecimento da doença é uma balança multifatorial, determinada pela interação entre fatores de risco e fatores protetores'', avalia.
A grande crítica dos médicos é que o etilismo é muito pouco conhecido da população como um fator de risco para o câncer. ''O álcool está muito inserido na sociedade e apesar de ser uma droga é bem aceito. Infelizmente o álcool não é encarado como potencial causador de câncer, como o tabaco'', lamenta Campos.
Uma pesquisa feita no ano passado com cerca de 30 mil pessoas de 29 países do mundo inteiro pelo Roy Morgan Research e pelo Gallup International, e apresentada pela União Internacional contra o Câncer (UICC) na abertura de um congresso mundial sobre a doença, mostrou que o consumo de álcool é considerado um fator de risco por apenas 51% das pessoas, e que 42% das consultadas nos países ricos estão convencidas de que o consumo de álcool não aumenta o risco de câncer.

mockup