Consumidores combatem preconceito
No site orkut.com - a rede de relacionamentos que se transformou em uma amostra virtual dos usos e costumes - milhares de brasileiros se agrupam em comunidades com nomes de tarjas pretas. Em diálogos que mostram o tormento de conviver com a depressão, adolescentes e adultos trocam informações sobre dosagens de remédios, falam sobre períodos de adaptação ou possíveis efeitos.
Mas nas conversas também aparece a formação de pequenas confrarias e gírias. Tarjas são os consumidores. Benzas são os Benzodiazepínicos (BZ), o grupo de medicamentos derivados do Valium que está entre os mais prescritos do mundo para tratamento da ansiedade.
Percebi à minha volta que as pessoas já comentam sem nenhum pudor que usam esses remédios. Tem até várias tribos, formadas pelos que se dão melhor com um remédio do que com outro, diz a editora Isa Pessoa, organizadora e uma das autoras do livro Tarja Preta (Editora Objetiva). A obra traz sete contos protagonizados por consumidores assumidos.
Comerciante em Londrina, Maria Neide do Pimentel, de 46 anos, mais conhecida como Mara, não tem problema nenhum em dizer que toma tarja preta para dormir durante pelo menos seis meses durante o ano, e depois dá um tempo. Sempre com orientação médica. Agora é o Noctal, mas já tomei o Rivotril, que é da mesma linha. E também tem períodos em que tomo fluoxetina, conta.
Depois de passar por dois assaltos à mão armada, um em Londrina e outro em Fortaleza (CE), e algumas perdas na família, ela conta que foi quase inevitável recorrer aos remédios. Não acho justo não tomar se faz bem para mim e para minha família. Ninguém merece não dormir e ficar mal se existe a droga no mercado.
Os médicos, no entanto, advertem: os consumidores estão certos em combater o preconceito, mas é preciso ter cuidado com o risco de uso indiscriminado. Sou médico e prescrevo remédios. Mas é preciso ver que as pessoas viveram até hoje sem tomar e a maioria delas não precisa. Essa diferença tem de ficar bem definida antes que se estimule o uso, diz o psiquiatra Alexandre Saadeh, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e membro do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. (Chiara Papali, com Agência Estado)





