Alto nível de terceirização nos canteiros de obras pode camuflar números
No Brasil, um dos setores com maior frequência de acidentes de trabalho grave é o madeireiro/moveleiro, segundo dados do Ministério da Previdência Social. ''No País, são 500 mil dedos arrancados das mãos dos operários por ano nos maquinários usados pelo setor'', informa Barros.
No setor madeireiro, o uso de equipamentos ultrapassados é apontado por Barros como uma das causas dos acidentes. Segundo ele, a idade média das máquinas em operação é de 20 anos. ''Por ser uma atividade bastante ligada à extração e movimentação de cargas pesadas, aliada à tecnologia deficiente, falta de treinamento da mão-de-obra e o caráter provisório dos barracões utilizados, acaba ocorrendo um número expressivo de acidentes'', comenta Barros.
O setor moveleiro apresenta um caráter mais industrial, com equipamentos mais modernos, mas nem por isso as ocorrências são menos graves, na avaliação de Barros. Mutilações, problemas de surdez e respiratórios são comuns entre os trabalhadores do setor. Isso ocorre, informa Barros, mais devido à falta de equipamentos de proteção.
O Sindicato das Indústrias da Madeira do Estado do Paraná admite que o número de acidentes no setor é alto, mas o diretor executivo da entidade, Osmar Matoso, afirma não ter muita segurança nos números. ''Já ouvi falar que os acidentes estão mais concentrados no comércio'', comenta, sem precisar a fonte da informação.
Mesmo assim, foi formada uma comissão unindo representantes dos sindicatos patronais e de trabalhadores da madeira e moveleiros do Estado, com a participação da Delegacia Regional do Trabalho. ''A comissão vai estudar formas para reduzir os acidentes'', disse ele. Matoso também admite que os maquinários usados no setor madeireiro são obsoletos. ''O setor tem dificuldades de acesso às tecnologias mais modernas devido aos custos''.
O Sindicato das Indústrias Moveleiras de Arapongas (Sima), onde está o maior parque moveleiro do Estado, discorda da forma como o Ministério do Trabalho pesquisa os acidentes de trabalho, reunindo numa mesma categoria o setor moveleiro e madeireiro. ''Esses setores não deveriam ter o mesmo enquadramento'', diz José Roberto Pontalti, secretário-executivo do Sima.
Pontalti informa que já foram feitos movimentos para separar os dois setores, por considerar que o madeireiro concentra o maior número de acidentes. Segundo ele, uma parcela considerável de serrarias trabalha em locais de difícil acesso para a fiscalização.
Pontalti ressalta que as indústrias moveleiras de Arapongas trabalham com tecnologia avançada, reduzindo os riscos de acidentes. ''Eles ocorrem, mas são raros em nossas fábricas.''
Nos anos 80, a construção civil era campeã absoluta em frequência de acidentes do trabalho e hoje, segundo estatísticas oficiais, está em quarto lugar no ranking nacional . Continua, porém, como campeã em número de mortes. Além da maior conscientização dos empregados e trabalhadores do setor, Sérgio Silveira de Barros cita a terceirização como um dos fatores que ''ajudaram'' a reduzir a estatística oficial de acidentes da construção.
''As construtoras terceirizaram muitos trabalhos e alguns acidentes passaram a ser computados nas estatísticas de outros setores. Por exemplo: quando uma obra está concluída e entram os trabalhadores da limpeza. Caso ocorra um acidente, ele é computado para o setor de asseio. Nesse caso, há uma migração mas a origem é a construção civil'', observa. Barros, no entanto, diz que houve uma grande mudança na construção civil em decorrência da fiscalização constante e das sanções aplicadas.
O segundo colocado no ranking dos acidentes, no Paraná, é o setor de reparação de veículos automotores, ocasionados pela insalubridade química, acidentes com soldas, compressores etc.
O setor de armazenagem agrícola ocupa o terceiro lugar em acidentes graves, com mortes, no Estado. As três últimas mortes ocorreram na região Norte do Estado, duas na Corol (em Rolândia) e uma na empresa Sedorko, que presta serviço à Cocamar (em Maringá). As duas empresas envolvidas tiveram os setores em que ocorreram os acidentes interditados, por absoluta falta de segurança para o trabalhador.
Na opinião de Barros, se as empresas investissem de 5% a 10% de suas receitas em segurança do trabalho, o resultado seria surpreendente. ''Já está comprovado que para cada R$ 1 investido em segurança, tem-se o retorno de R$ 6,00'', diz. Barros ressalta que empresas são obrigadas a pagar indenizações de até R$ 100 mil ao trabalhador que tenha sido mutilado no trabalho. ''Em caso de morte, a família pode receber um valor superior'', acrescenta. (B.B.)

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