Junte tendência familiar com alimentação pobre em fibras e o resultado é a constipação intestinal. Em crianças, o problema é freqüente, e pode ficar grave, se não for tratado adequadamente.
Segundo o gastroenterologista pediátrico Alfredo Zepeda Wills, de Londrina, o problema costuma aparecer mais freqüentemente em crianças com dois a quatro anos de idade - e pode se estender para a vida adulta.
A constipação, explica o médico, é caracterizada pelo grande esforço em evacuar e por fezes muito duras. Na maioria das vezes o processo é doloroso e pode até ocorrer sangramento. Ele ressalta que não é a freqüência com que se evacua que pode indicar a constipação. ‘‘Às vezes a criança evacua a cada dois, três, quatro dias, mas isso não é problema, pode ser o ritmo dela. É preciso atenção aos outros indicadores’’, explica.
Na fase pré-escolar, a ‘‘pressa’’ é outro fator que pode atrapalhar a evacuação completa. Wills explica que a criança não quer ‘‘perder tempo’’ no banheiro, para voltar logo a brincar, e acaba não evacuando tudo. Já na fase escolar, a criança tem vontade, mas não faz na escola, por exemplo. Neste caso o que atrapalha é a vergonha, o tempo e as más condições do banheiro.
Uma constipação aguda, explica o médico, também pode evoluir para um caso crônico. Basta sair da rotina, com uma viagem longa, por exemplo, que a criança pode esquecer ou reprimir o desejo de evacuar. Aí as fezes podem se acumular e causar uma fissura no ânus. ‘‘Se machuca, a criança passa a ‘segurar’ e aí a constipação fica crônica’’, alerta.
Um dos perigos da constipação, alerta o médico, é que as famílias não a consideram algo com que se preocupar. ‘‘Só depois de dois, três anos, é que vão perceber’’, critica. Mas depois de todo esse tempo sem tratamento, o problema pode ter evoluído para outro - a perda de fezes.
O pediatra explica que o acúmulo de grande quantidade de fezes pode fazer a criança perder o reflexo que indica que ela vai evacuar. O resultado é a perda de fezes, ‘‘uma, duas, três, até cinco vezes ao dia’’. O mau cheiro característico traz uma conseqüência cruel - o isolamento da criança pelos colegas, seja da escola, do prédio ou do bairro. ‘‘Retraída, o rendimento escolar da criança cai e aí sim um problema psicológico pode se instalar’’, afirma.
Neste caso, o tratamento vai depender da idade da criança e da aceitação por parte dela e da família, mas normalmente inclui mudanças na alimentação, uso de medicamentos e de algum tipo de laxante. ‘‘A mudança de hábitos é muito difícil, porque inclui falar ‘não’ para muita coisa’’, avalia.
Em casos muito graves, de fecaloma (acúmulo de fezes muito endurecidas e secas no final do intestino grosso) é necessário a hospitalização da criança para que seja feita uma lavagem intestinal. ‘‘Às vezes até com a necessidade de anestesia geral’’, informa o médico.
Wills alerta que a perda de fezes não deve ser confundida com uma doença séria chamada encoprese, que requer tratamento psicológico. Nessa doença, a criança evacua normalmente, só que em locais impróprios, na própria calça ou nos cantos da casa. A doença é resultado de graves problemas familiares, doenças psiquiátricas ou mesmo abuso sexual.

Isabella Ortega, hoje com quatro anos, está livre do problema: com a ajuda de um médico e de uma nutricionista, família revolucionou a alimentação da casa, recorrendo às verduras e legumes temperados com muito azeite, frutas e cereais

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