Consórcio de estrangeiros paga R$ 100 mil para ser tele-espelho
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Maria Fernanda Delmas 
Rio, 27 (AE) - O consórcio Global Village Telecom (GVT), formado por empresas estrangeiras, arrematou a concessão da empresa-espelho da Tele Centro Sul (TCS) com apenas R$ 100 mil, frente à proposta dez vezes maior do único grupo concorrente, o Espelho Sul Telefônica. O trunfo do GVT no leilão de hoje de manhã, na Bolsa de Valores do Rio, foi a superioridade da proposta técnica - instalar 594 mil linhas até 2002 -, que tinha um peso de 70% na pontuação final.
O preço, que pareceu irrisório ante os altos valores pagos um ano atrás pelas empresas do Sistema Telebrás, causou surpresa, mas oito minutos depois de iniciado o leilão acabou a dúvida: a diferença entre os pontos do GVT e do adversário era tanta que não dava margem a uma nova rodada de propostas.
Os participantes estavam calmos e não havia quase espectadores na bolsa. A reação dos derrotados foi tranquila. "Nossa proposta era transparente e de acordo com as expectativas de mercado", afirmou Rafael Steinhauser, vice-presidente da Canbrá, empresa-espelho da Telemar, formada pelos mesmos sócios do Espelho Sul. "Queremos parabenizar a Embratel pelo processo", completou.
Para a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), foi uma manhã de alívio, depois de quatro tentativas malsucedidas de vender a empresa-espelho da TCS. O mercado atribuía a falta de interessados ao fato de que a região 2 - Distrito Federal, Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - é bem servida de telefones.
A TCS encerrou o primeiro semestre deste ano com 4,5 milhões de terminais instalados, uma densidade (telefones por habitantes) de 15%. A ex-estatal quase pôs tudo a perder esta semana, quando tentou embargar o leilão. Mas entrou em acordo com a Anatel para que a área de concessão não fosse fatiada e pediu a cassação da liminar.
Consórcios - Três consórcios depositaram a garantia de R$ 30 milhões na véspera do leilão, e a paulista Splice foi a única a não fazer proposta, depois de divulgar que teria um sócio estratégico - repetindo o feito de um dos leilões anteriores.
As duas propostas apresentadas ficaram muito aquém do valor da garantia, o que não chega a ser um mau sinal, na visão do analista de telecomunicações do Banco Santander, Eduardo Munemori. "O governo queria ter mais previsibilidade e, se fosse para garantir investimento, precisaria pedir uns R$ 200 milhões."
O analista ficou surpreso com a ausência da Net Sul, empresa de TV a cabo da RBS. Houve boatos de que a operadora procurava parceiros. A proposta vencedora foi "factível", segundo Munemori. Ele explica que os sócios do GVT dominam a comunicação em áreas de baixa densidade populacional, com comunicação sem fio - Wireless Local Loop (WLL) - e por satélite.
O GVT é formado pela Global Village Telecom (70%), sediada na Holanda, e as norteamericanas ComTech (25%), de infraestrutura e participação em companhias telefônicas, e RSL (5%), provedora de longa distância.
A Global Village foi criada há um ano e meio com capital dos grupos financeiros Merril Lynch (norteamericano) e Magnum (inglês), da empresa de satélites Gilat (também norteamericana) e do grupo Clal (israelense).
A Inepar seria a sócia brasileira do GVT, mas na última quarta-feira foi probida de participar pela Anatel, que entendeu que o grupo paranaense oficialmente ainda tem ações da operadora fixa Telemar. "Não tivemos de alterar muito nossos planos", garantiu o chief executive officer (CEO) da Global Village, Shaul Shani.
Investimentos - O executivo limitou-se a dizer que investirá "algumas centenas de milhões de dólares" na concessão e atenderá a mais clientes do que a diz a meta.
A obrigação da GVT é: cobrir 88% dos municípios com mais de R$ 200 mil habitantes, mais a capital Palmas (TO), até o ano 2000, com densidade de 2%; cobrir 100% desses municípios até 2001, com densidade de 3,75%; e aumentar a densidade para 4,75% em 2002. Isso significa que a operadora terá de instalar 220 mil linhas até o ano que vem, 468 mil até 2001 e 594 mil até 2002. O Espelho Sul prometeu 330 mil.
O GVT cobrirá 27 dos 1,8 mil da região. "Se eles não avançarem mais até o final de 2001, poderemos abrir concessões para outros concorrentes", informou o superintendente de serviços públicos da Anatel, Luiz Tito Cerasoli. A documentação do GVT tem de ser entregue à Anatel até o dia 8 de setembro e o prazo para o início das operações é 31 de dezembro de 2000.
Para o analista do Santander, a vitória do GVT foi melhor para a TCS, cuja área abrange 30% do território nacional. "Os outros têm presença nacional e interligariam com facilidade seus sistemas de transmissão de dados, que serão o propulsor do mercado de telecomunicações nos próximos quatro ou cinco anos".
Os sócios do Espelho Sul são a Bell Canadá, as norteamericanas Qualcomm e VeloCom (ex-WLL International), a argentina Liberman e o grupo brasileiro Vicunha - que tem como acionista a família Steinbruch. Além da Canbrá, formaram a Megatel para arrematar a empresa-espelho da Telesp.


