Conservadores lançam contra-ofensiva no Irã Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 24 (AE) - Há dois meses, no dia 18 de fevereiro, os "reformadores" iranianos triunfaram no primeiro turno das eleições legislativas: após o segundo turno, cuja realização estava prevista para algumas semanas mais tarde, eles poderiam confirmar sua vitória e assumir uma posição nevrálgica, o Parlamento (o Majlis).
Os conservadores estavam condenados à "defensiva". Em maio de 1997, eles já haviam perdido a presidência da República que ficou com o líder dos reformistas, Mohammed Khatami. Se, pois, os reformadores dominassem o Parlamento neste início do ano 2000
então a vitória dos liberais seria total e os "integristas islâmicos", reunidos em torno de seu líder, o aiatolá Ali Khamenei, guia espíritual do país, estariam derrotados.
Em tal hipótese, 20 anos depois da "Revolução xiita" do aitolá Ruhollah Khomeini, o Irã se libertaria finalmente da embriaguês e das crueldades do "fundamentalismo islâmico".
Contudo, hoje precisamos perguntar se as energias dos "islâmicos " de Ali Khamenei não foram subestimadas. Estes conservam postos fortes de poder: o Exército, sem dúvida, mas também grande parte do clero xiita, bem como o poder judiciário.
E, na realidade, o aiatolá Ali Khamenei acaba de lançar sua contra-ofensiva, atacando particularmente a imprensa liberal, acusada de difiundir idéias modernas, imorais, subversivas e até mesmo - horror supremo! - anglo-saxônicas, quando não até sionistas! Mas o aiatolá Khamenei não agiu diretamente. Simplesmente falou, na semana passada, para dizer que "alguns jornais tornaram-se bases do inimigo e fazem o mesmo trabalho que a Voz da America ou a BBC inglesa.
Este discurso foi suficiente. Os juizes o entenderam como um convite para reprimir a imprensa liberal. No domingo, 23 de abril, as autoridades judiciárias fecharam 12 jornais diários, todos seguidores da tendência liberal do presidente Mohammed Khatami. Ao mesmo tempo, ordenaram a prisão de alguns dos mais talentosos jornalistas reformistas.
Desta forma, a sombra se estendeu novamente sobre este vasto país de 60 milhões de habitantes, que, depois de 20 anos de uma austeridade absurda, esquizofrênica, começava a abrir-se para a a esperança, para a vida.
Há já alguns dias, rumores provenientes de Teerã nos causavam inquietação: previa-se que os "fudamentalistas" estavam preparando um "grande golpe de Estado" com o objetivo de criar bastante desordem para que os "conservadores", que controlam o calendário eleitoral, pudessem anular o segundo turno das eleições. Hoje, estes temores se revelam bem fundados.
Sob diversos pretextos, os "fundamentalistas" já haviam adiado, de dia em dia, a data do segundo turno das eleições legislativas. Eles sabem que, se o segundo turno for realizado, então o Parlamento verá a entrada maçiça de "modernistas". A última chance de conjurar esta volta das forças progressistas era portanto a anulação deste segundo turno das eleições. E o ataque agora realizado contra os jornais moderados deveria permitir esta anulação.
A situação é perigosa: certamente, entre a população, os reformadores dispõem de maioria esmagadora . Esta população, cuja maioria nasceu depois da Revolução Islâmica de Khomeini em 1978, está esgotada pela tolice, a fome, a crueldade, pela arbitrariedade do regime xiita. Mas os conservadores possuem ainda sólidas alavancas e grande capacidade de agir. E o acabam de mostrar.
Os reformadores tiveram uma reação muito prudente. Os jornais proibidos publicaram uma declaração conjunta, exigindo que todos conservem a calma e não aceitem eventuais apelos à violência. Esta declaração cautelosa mostra a gravidade destes dias: o Irã pode se desestabilizar a qualquer momento, como aconteceu há 20 anos, e derivar para uma tragédia, cujas primeiras vítimas seriam os liberais.





