Makhachkala, Rússia, 10 (AE-AP) - Um conselho que agrupa várias tendências muçulmanas daguestanesas, denominado Shura, proclamou hoje um Estado islâmico na república russa do Daguestão e conclamou a população a aderir à jihad (guerra santa) e lutar contra os infiéis, num comunicado distribuído em Grozny, capital da vizinha república separatista da Chechênia - também parte da Rússia.
A Shura reuniu-se em Botlilh, cidade sitiada pelos rebeldes que tomaram há quatro dias alguns vilarejos no sudoeste do Daguestão. Integrada principalmente por radicais wahabitas, não é reconhecida pelas autoridades daguestanesas, que procuraram minimizar o alcance da declaração.
O Conselho Muçulmano do Daguestão, oficial e bem mais poderoso do que a Shura, condenou a iniciativa, enfatizou que a república não vai romper com a Rússia. O mufti do Daguestão, Ahmad Hadji Abdulaierv, disse que os extremistas muçulmanos são pouco numerosos na região e nada podem decidir. Outros líderes islâmicos afirmaram em Makhachkala que os rebeldes estão fazendo mau uso do Islã. Os guerrilheiros tomaram há quatro dias alguns vilarejos no sudoeste do Daguestão e estão sendo combatidos por forças de segurança russas com artilharia pesada e mísseis.
Após reunir-se com o presidente Boris Yeltsin, o recém-nomeado primeiro ministro da Rússia, Vladimir Putim, disse que o governo aprovou hoje uma série de medidas para restabelecer a ordem pública e a disciplina no Daguestão. "Serão necessárias duas semanas para resolver o problema", enfatizou Putim, que também discutiu a situação no Cáucaso com ministro da Defesa, Igor Sergueyev. Num balanço da situação no Cáucaso, o primeiro-ministro considerou que, no conjunto, está se normalizando, mas ainda permanece complexa". Putin não deu detalhes sobre as medidas que serão adotadas. O Kremlin apenas informou que a segurança será reforçada na capital e nas principais cidades da Rússia, por temer atentados.
Hoje, as forças de segurança russas retomaram o controle de dois vilarejos no distrito de Tsumandisnki, no sudoeste, e os cercaram nas duas outras localidades na região de Botlikh, de acordo com autoridades daguestanesas. Segundo a Associated Press
contudo, eles se reagruparam em duas vilas menores e apoderaram-se do povoado de Khanikala, no distrito de Tsumadisnki. o governo daguestano informou que quatro helicópteros russos foram derrubados, causando a morte dos pilotos, num ataque rebelde ao pequeno aeroporto militar de Botlikh, na segunda-feira. Dois soldados russos também morreram. As baixas dos rebeldes teriam sido bem mais elevadas, segundo o Ministério do interior: 44 mortos e 80 feridos - informação não confirmada por fontes independentes.
O ministro do Interior do Daguestão, Omar Magomedov, declarou que não permitirá que os rebeldes recuem para o território checheno. "Eles devem render-se ou serão atacados", disse. O governo russo assegura que os guerrilheiros são predominantemente da tendência wahabita e infiltraram-se no Daguestão pela fronteira da Chechênia, com o apoio das autoridades chechena - que desmentem a acusação. Entre 300 e 600 rebeldes teriam invadido o Daguestão - conforme estimativas de militares russos - e recebido algum apoio de moradores dos vilarejos daguestanos invadidos. Ao mesmo tempo, cerca de 4 mil pessoas fugiram da região em direção à capital.
A imprensa russa mostra menos otimismo que as autoridades. O influente diário Kommersant avalia que uma "guerra de grande amplitude começou na Rússia no fim de semana e prevê o endurecimento da polícia interior em razão da nomeação de Putim para primeiro-ministro, na segunda-feira, substituindo Serguei Stepashin.. "O governo federal repete no Daguestão todos os erros cometidos durante a guerra da Chechênia", assinalou o Nezavissimaia Gazeta. o fantasma da guerra da Chechênia (1994-1996) preocupa os russos.NOVO GOVERNO - Os meios políticos e a imprensa russa consideram praticamente certa a aprovação de Putim pela Câmara Baixa do Parlamento russo (Duma), na sessão que será realizada segunda-feira. Hoje Stepahin foi convidado para candidatar-se a uma vaga no Parlamento, nas eleições de 19 de dezembro, pela coalizão Mãe-Pátria-Toda Rússia
do prefeito de Moscou, Yuri Lujkov, e influentes líderes regionais. Um dos motivos da demissão de Stepashin, segundo fontes do próprio Kremlin, foi sua incapacidade de conter o crescimento do bloco de Lujkov, antagonista de Yeltsin.

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