Conselho da Fiesp vê risco de desorganização da economia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 24 (AE) - O Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) vê risco de desorganização da economia brasileira, caso a alta do dólar frente ao real se mantenha por muito tempo. Muitas indústrias poderiam entrar em processo de inadimplência, o que aumentaria o desemprego e levaria, em alguns casos, até mesmo ao fechamento de atividades. A recessão seria agravada, funcionando como círculo vicioso na situação de economia em retração.
A avaliação foi transmitida pelo empresário Bóris Tabacof, presidente do Conselho, que teve hoje pela manhã a sua primeira reunião do ano e também o primeiro encontro de seus novos integrantes. O grupo inclui representantes de todas as atividades da economia e economistas de diferentes ideologias.
"O foco crítico da travessia é como vamos fazer a reversão do over shooting", disse Tabacof, referindo-se ao processo de transição, até que a cotação do real frente ao dólar chegue a um patamar aceitável pelo mercado financeiro e suportável pelo setor produtivo. "A economia não pode funcionar com esse câmbio de R$ 2,00."
A partir da experiência dos países do Leste Asiático, os integrantes do conselho discutiram quais seriam os condicionantes que ajudariam a reversão da taxa de câmbio, para que houvesse a recuperação da credibilidade no Brasil e consequentemente o retorno do capital externo.
De acordo com Tabacof, é imprescindível que o governo tenha "uma ação política de negociação com o sistema financeiro internacional" para que voltem a ser ofertadas linhas de crédito para as exportações. Desde a eclosão da crise russa, essas linhas foram reduzidas em mais de 40%, o que faz com que o empresário nacional não tenha acesso a capital que permita a produção voltada à exportação.
Tabacof não disse o que governo poderia negociar, mas acha que uma "pressão forte" do governo ajudaria a oferta desse crédito.
Se as linhas de crédito voltarem a ser disponibilizadas, avalia o Conselho, o volume das exportações poderia ser aumentado a curto prazo, o que resultaria no superávit da balança comercial brasileira. Acompanhado de outras medidas como a reforma fiscal, esse superávit seria uma demonstração importante para o mercado externo da reorganização do País.
BC - Simultaneamente, a Fiesp espera que o novo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, tenha uma "administração sensível" do dia-a-dia do mercado financeiro, o que, segundo Tabacof, incluiria até mesmo intervenções no mercado de câmbio para evitar acelerações bruscas da cotação.
Há expectativa também de que o governo, através do Banco Central, seja cuidadoso com sua política monetária, à medida que a taxa nominal de juros será corroída pela inflação, gerando até mesmo juros negativos. O conselho não opinou sobre possíveis reduções dos juros, mas mostrou-se preocupado quanto à ocorrência dos juros negativos.
"É inevitável que os preços cheguem a um determinado patamar e se acomodem", disse Tabacof, referindo-se a uma escalada inflacionária nos próximos meses.
Na reunião, os economistas e empresários citaram as previsões já feitas para a inflação, que oscilam em até 12%, mas não fizeram uma projeção própria. Tabacof descartou qualquer possibilidade da volta da indexação dos preços e fez questão de dizer que não há risco de desabastecimento na economia. Assim, ele vê como totalmente desnecessária a criação de impostos sobre as exportações, o que seria uma forma de manter regulada a oferta interna.
Tabacof é totalmente contrário a qualquer proposta de extinção ou alteração da Lei Kandir. Segundo ele, essa lei foi capaz de resolver "um problema secular do setor produtivo" ao permitir a isenção para os produtos semi-elaborados.
"Não pode mexer em nada", disse, categórico, refutando as reivindicações dos governos estaduais que pedem compensações para a existência da lei nesse novo ambiente macroeconômico, após a desvalorização do real.


