São Paulo, 08 (AE) - O uso de fígado de suínos em transplantes em seres humanos deverá ser um dos principais temas do 15.º Congresso Brasileiro de Hepatologia, que se realiza a partir de domingo até quarta-feira no Rio. Os resultados de uma pesquisa publicada no mês passado na revista "Science" parecem ter afastado um dos maiores impedimentos para o início das cirurgias experimentais desse tipo - o medo de que os receptores fossem contaminados por um retrovírus desses animais.
A alternativa é atraente porque a escassez de órgãos já se tornou a principal causa de morte entre os candidatos a um transplante: 40% deles morrem na fila de espera, enquanto metade dos transplantados vive mais de 20 anos depois da operação. Isso se deve, sobretudo, ao desenvolvimento de drogas capazes, cada vez mais, de coibir a rejeição sem compromer muito o funcionamento do sistema imunológico. No Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, das 256 pessoas que estão na fila, mais de cem morrerão antes de ter acesso à cirurgia. "Aumentar o número de órgãos para transplante é hoje o nosso grande desafio", diz o hepatologista do HC, Paulo Massarolo.
Há alguns anos, a manipulação genética propiciou suínos com fígados mais parecidos com os de humanos, o que deve contornar a tendência à rejeição decorrente das diferenças entre as espécies. Apesar disso, há quatro anos, a autorização para iniciar as cirurgias experimentais foi suspensa por medo de que os receptores fossem contaminados por um retrovírus existente no porco. Temia-se que, no homem, o vírus sofresse mutações imprevisíveis com o risco até de se converter em uma epidemia. A pesquisa publicada na "Science", porém, mostra que essa possibilidade é muito remota.
O trabalho estudou 160 pacientes, de 13 países, que foram submetidos a transplantes de tecidos suínos como pele, partes do pâncreas etc. Acompanhados por até 12 anos, nenhum deles apresentou indícios do vírus. "Acho que as primeiras cirurgias experimentais devem começar assim que os comitês de ética apreciem a questão", opina o hepatologista e pesquisador do HC Silvano Raia. Ele lembra que a única experiência de transplante usando um fígado de babuíno mostrou que, em três meses, o órgão triplicou de tamanho até atingir as dimensões de um fígado humano. O receptor sobreviveu por três meses.
Outras alternativas para aumentar a oferta de fígados para transplante são o split (no qual o órgão é dividido para beneficiar dois receptores) e o transplante intervivos, usado entre familiares. Nos próximos meses o HC deve receber os equipamentos para começar a fazer o split, que deverá aumentar em 30% o número de transplantes de fígado do hospital.

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