Buenos Aires, 01 (AE) - A Câmara de Deputados da Argentina suspendeu hoje (01) a posse como deputado federal de um dos mais famosos ex-repressores da última ditadura militar (1976-83), o general Antonio Domingo Bussi. O general foi impedido por ser considerado "sem idoneidade para assumir o cargo", já que além de ter participado de torturas e mortes durante o regime militar
é acusado de enriquecimento ilícito e falsidade ideológica. Mas o caso não foi encerrado: a definição sobre o futuro parlamentar de Bussi ocorrerá nos próximos meses, quando o general poderá se defender diante do Congresso.
Desta forma, Bussi ficará temporariamente sem imunidade parlamentar, com o que poderia ser processado pelo sequestro de crianças durante a ditadura. Bussi também integra a lista de 98 ex-repressores argentinos acusados pelo juiz espanhol Baltasar Garzón de cometerem crimes contra a humanidade. O juiz Garzón emitiu há vários meses uma ordem de captura internacional. Desta forma, sem imunidade, Bussi poderia ser capturado ao sair de território argentino.
Hoje foi realizado o juramento dos novos 130 deputados "nacionais" (federais), que foram eleitos em novembro. Somente Bussi, que não compareceu, não pode tomar posse. Esta é a segunda vez na história do país que um parlamentar tem sua posse suspensa. O outro caso, em 1995, foi o do senador Ramón Saadi, que tentou encobrir a participação de amigos em um escândalo de violação e morte de uma menor.
O general Bussi, um dos todo-poderosos integrantes da liderança militar durante a ditadura, praticamente não teve defensores no plenário da Câmara. O único defensor do homem acusado de haver ordenado a morte de 900 pessoas foi seu filho, Ricardo Bussi, que é deputado desde 1997. Bussi filho afirmou que "ninguém é culpado até que seja demonstrado o contrário". O deputado socialista Alfredo Bravo, que foi torturado por colegas de Bussi nos anos 70, retrucou: "isso foi algo que Bussi nunca concedeu a nenhum dos detidos-desaparecidos".
Como manda a tradição, a sessão da Câmara foi presidida pelo deputado mais velho, Amado Juri, que havia anunciado que se Bussi fosse prestar o juramento, ele se retiraria. Em 1976, Juri era governador de Tucumán, e Bussi foi quem o prendeu. O governador foi colocado dentro de um forno de tijolos durante dois dias seguidos, sem comida nem água.
Depois, passou quase três anos fazendo trabalhos forçados. Juri sobreviveu, mas todos seus assessores foram assassinados. Mais de duas décadas depois, Juri argumentou: "não podia receber seu juramento. Não podia fazer isso a meus companheiros mortos".

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