Congresso do PT perde 3 dias discutindo palavra de ordem
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 1999
Por Vera Rosa e Wilson Tosta 
Belo Horizonte, 28 (AE) - Dos cinco dias do congresso do PT, três foram consumidos no debate de uma só questão: se o partido ia defender nas ruas uma campanha pelo impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso e a antecipação da eleição presidencial de 2002. Depois de muitas negociações, bate-boca e até tumulto na hora dessa votação em plenário, os moderados conseguiram derrubar o decantado slogan "Fora FHC", defendido pelos radicais. Mas não conseguiram desfazer, entre a maioria dos 928 delegados que participaram do congresso, a impressão de que faltou debater uma estratégia para o partido.
"Nossa elaboração programática está fraca e o congresso de Belo Horizonte foi um dos piores encontros dos quais participei", afirmou o líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP)
um moderado que integra o chamado bloco majoritário da legenda. "Isso aqui não foi um congresso: foi um encontro metido a besta", resumiu o ex-deputado Vladimir Palmeira (RJ), da ala radical. "A discussão acabou sendo completamente desfocada", concordou o prefeito de Porto Alegre (RS), Raul Pont, um dos líderes da tendência de esquerda Democracia Socialista.
Até mesmo o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, admitiu que o embate em torno do "Fora FHC" foi superdimensionado. "Não é possível canalizar toda a energia do PT contra um homem chamado Fernando Henrique Cardoso", observou Lula. "Passei dois dias procurando um acordo para retirar essa palavra de ordem e, no fim, todos cederam um pouco." Para Lula, o que vai mobilizar a sociedade não é um slogan, mas propostas concretas. "Precisamos apresentar um programa mínimo para combater a fome, a miséria e lutar contra esse modelo econômico", disse o petista, que, mesmo assim, evitou fazer críticas ao congresso. "O PT demonstrou que tem maturidade política",desconversou.
De qualquer forma, o jogo do empurra predominou depois do encontro de Belo Horizonte. No fim da votação que derrubou o lema "Fora FHC", moderados e radicais trocavam acusações pelas excessivas horas dedicadas à discussão do lema. "É inacreditável que, no fim do século 20, quando deveríamos estar falando dos problemas do Brasil e o que o PT vai fazer, o debate fique engessado numa palavra de ordem", protestou o deputado João Paulo Cunha (SP). Para o deputado Marcelo Déda (SE), quem esvaziou o debate de outros temas foi a esquerda do PT. "Não é verdade", retrucou o deputado Milton Temer (RJ), candidato derrotado à presidência do PT que foi apoiado pelos radicais. "Isso é um problema de psicanálise, de afirmação de ego dos moderados."
Socialismo - Apesar das polêmicas desencadeadas por declarações de Genoíno, que confessou não acreditar mais no socialismo como modelo econômico, o PT não debateu o tema. Dez anos depois da queda do Muro de Berlim, o PT apenas reafirmou resoluções antigas tomadas pelo partido, de 1990 e 1991. Assim, junto com o Programa da Revolução Democrática - o conjunto de reformas estruturais que o PT propõe dentro do capitalismo - foi reeditado um texto sustentando que o partido é socialista, contrário ao conceito de ditadura do proletariado, estatização forçada e economia planificada. Até aí, nada de novo ao que já se tinha aprovado em 1990.
"Temo um PT de bandeira arriada e descorada, um PT cor de rosa", disse o deputado estadual fluminense Chico Alencar (RJ), do grupo de esquerda Refazendo. "Isso não bate com a crise que o Brasil vive." Alencar também mostrou receio quanto à possibilidade de o partido tornar-se eleitoreiro e reclamou da política de alianças aprovada. "No limite, o PT pode fazer coligação até com o PPB", afirmou. "Se o PT se entrar na geléia geral brasileira, pode se diluir." Para o governador do Acre, Jorge Viana, eleito no ano passado por uma coligação que reuniu 12 partidos, a abertura do leque de alianças é justamente o desafio do PT para as eleições municipais do ano que vem e para a sucessão de Fernando Henrique, em 2002. "Tem muita gente na esquerda que tem preconceito de ser governo e quer continuar sendo oposição: não dá, tem de sair dessa", aconselhou. No Acre administrado pelo PT, o vice-governador, Édson Cadaxo, é do PSDB. Na avaliação de Viana, o PT perde tempo quando discute o tipo oposição que deve fazer. "Temos de dar um passo pra frente
surgir como alternativa", advertiu.
Genoíno afirmou que gostaria de ter debatido o socialismo com os companheiros. "Não houve avanço sobre essa questão", constatou. Na sua opinião, o congresso pecou por não discutir como a esquerda deve atuar diante do "fracasso" da doutrina neoliberal. "O dilema da esquerda não é nem a terceira via nem a identidade com o Muro de Berlim, mas sim como se situar pós-neoliberalismo." Diagnóstico semelhante tem o deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), que acompanhou Fernando Henrique na viagem a Florença, onde o presidente se reuniu com os principais chefes de governo do mundo para debater a terceira via - busca de um modelo alternativo ao neoliberalismo e ao socialismo clássico. "Temos de conciliar a esperança que despertamos na população com a confiança que ainda não despertamos", ponderou. "Ninguém vota por esperança."
Chinaglia admitiu que o debate do tema monopolizou o congresso. "Isso aconteceu mais pelas nossas divergências em outros temas do que pela avaliação que o PT faz do governo Fernando Henrique", disse. No fim da plenária, uns jogavam a culpa nos outros pelas excessivas horas dedicadas à discussão de um slogan. "Foi uma perda de tempo lamentável", protestou o deputado João Paulo. "É inacreditável que, no fim do século 20, quando deveríamos estar discutindo problemas do Brasil e o que o PT vai fazer, o debate fique engessado numa palavra de ordem." O governador do Acre, Jorge Viana, concordou com João Paulo. "O PT precisa gastar mais energia com propostas alternativas e um projeto para o Brasil", argumentou.
Para o prefeito de Porto Alegre (RS), Raul Pont, a discussão que predominou no congresso do PT foi "completamente desfocada". Um dos líderes da tendência de esquerda Democracia Socialista, Pont considerou que o encontro do PT perdeu uma grande oportunidade de afinar o discurso em torno de temas fundamentais, como estratégias e desafios do partido. "Estamos vivendo um problema: a direção falseia o debate, talvez para esconder o outro, sobre o socialismo que defendemos."


