Congresso confirma divisão entre cientistas sobre transgênicos
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segunda-feira, 04 de outubro de 1999
Por Sérgio Bueno 
Gramado, RS, 5 (AE) - O 45º Congresso Brasileiro de Genética, que termina amanhã (6), confirma a divisão entre os cientistas brasileiros quanto ao plantio de produtos geneticamente modificados. No encontro em Gramado, as posições mais exaltadas são de geneticistas irritados com as resistências políticas e restrições legais ao cultivo dos transgênicos. Há muitos pesquisadores que consideram insuficientes as informações apresentadas até agora sobre o grau de segurança ambiental e nutricional desses produtos.
A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Glacy Zancan, foi a mais criticada no fórum sobre transgênicos. Os ataques partiram de dois lados. Do público, formado basicamente por professores, pesquisadores e estudantes, foram acusações de que a entidade "contribui para o radicalismo" do Rio Grande do Sul, onde o governo optou pela transformação dos Estados em área livre de transgênicos.
Na mesa principal, a SBPC foi criticada pela professora Maria Helena Zanettini, da Universidade Federal do RS (UFRGS) por "respaldar" o secretário da Agricultura gaúcho, José Hermeto Hoffmann, assumido adversário dos transgênicos. O chefe da seção de genética molecular da Novartis, Glóverson Moro, disse ainda que a sociedade "deixou" sua imagem ser associada a "entidades não-científicas abertamente contrárias" aos produtos geneticamente modificadas.
O professor Ernesto Paterniani, da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), chegou a associar a resistência aos transgênicos aos interesses das indústrias de agroquímicos, pois o desenvolvimento de plantas geneticamente modificadas levaria à redução da aplicação de herbicidas. Outro fator seria o "sentimento antiamericano" de "ideologias político-partidárias que nada têm a ver com ciência" contra as empresas dos Estados Unidos (como a Monsanto) produtoras de sementes geneticamente modificadas.
Na avaliação de Paterniani, os países europeus, utilizados como referência pelos adversários dos transgênicos, estão optando pelas culturas convencionais porque "não têm interesse" em aumentar a produção agrícola. Segundo ele, a agricultura européia é "ineficiente" e o aumento da produção elevaria os gastos dos governos com subsídios. Mesmo criticando a falta de eficiência da produção agrícola daqueles países, o professor acrescentou que a "superoferta de alimentos" no continente contribui para o desinteresse pela expansão da produção local.
SBPC - "Ninguém é contra a pesquisa", defendeu-se a presidente da SBPC, Glacy Zancan. Ela ressalvou, entretanto, a necessidade de respeito a "princípios éticos" e de maiores "cuidados" no processo de manipulação comercial de genes. "A CTNBio errou ao autorizar, em 1997, plantios experimentais a céu aberto sem análise de impacto ambiental". Para a cientista, o Brasil não pode se basear em testes feitos em outros países, pois possui ecossistema próprio. Questionada em relação à "moratória" de cinco anos para o plantio de transgênicos no País sugerida pela SBPC, Glacy afirmou que a proposta foi "uma forma de chamar a atenção da sociedade para o assunto". "Queríamos que a população se desse conta de que é preciso discutir e impedir que as coisas fossem feitas sem controle". Na opinião da cientista seria "bom" se as empresas produtoras de sementes geneticamente modificadas ajudassem a divulgar não só os "prós", mas também os "contras" da tecnologia.
Na mesa principal, o único "aliado" da presidente da SBPC foi o professor Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "Vivemos uma absoluta falta de dados no Brasil", argumentou. De acordo com ele, o glifosato, herbicida utilizado com a soja transgênica da Monsanto, aumenta a possibilidade de ocorrência do câncer "Linfoma non-Hodgkin" (linfático) e provoca irritação na pele e nos olhos. Também está associado a partos prematuros, tem persistência de até três anos no solo e 60 dias na água e provoca "efeitos nocivos" em "peixes, insetos benéficos e minhocas". O pesquisador citou ainda o risco do aparecimento de "superpragas".


