Tradicional palco de manifestações, a Avenida Paulista assistiu ontem ao pior confronto entre policiais e grevistas nos últimos dez anos. O último registro de uso de cachorros e de bombas contra manifestantes nessa avenida ocorreu em 24 de maio de 1989.
Pelo menos 17 pessoas ficaram feridas, duas em estado grave. A manifestação reuniu, segundo os dirigentes sindicais, entre 30 mil e 40 mil pessoas. De acordo com a Secretaria de Segurança, 7 mil.
Os policiais da tropa de choque da Polícia Militar usaram, das 14h35 às 15h30, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, balas de borracha e sprays de pimenta para dispersar os grevistas que se concentravam em frente ao Masp.
Eram funcionários estaduais da saúde e da educação e estudantes que se preparavam para uma assembléia conjunta com grevistas de outras categorias – como metroviários, funcionários da Justiça Federal e professores universitários – que ainda chegavam.
O ataque da polícia ocorreu depois que os manifestantes, que estavam concentrados em uma pista, bloquearam o outro lado da avenida. Momentos antes, o coronel Reinaldo, comandante da tropa de choque, disse: ‘‘Temos a missão de manter o trânsito livre em um lado. A ilha (canteiro) é o limite. Temos um acordo com eles e faremos um bloqueio com homens perfilados na ilha’’.
Questionado sobre o que aconteceria caso os manifestantes não se restringissem a um lado da avenida, o coronel respondeu: ‘‘Aí eu não sei’’.
Nesse momento, ele ouvia a diretora do sindicato dos professores estaduais Luzia Conceição Quinesse dizer que estava preocupada com a possibilidade de os estudantes presentes na manifestação não obedecerem ao acordo.
Vinte e cinco minutos após esse diálogo, um grupo formado majoritariamente por estudantes invadiu o outro lado da avenida, impedindo o trânsito. A tropa de choque entrou em ação imediatamente, levando cachorros para dispersar os grevistas. Em seguida, uma fileira de soldados da tropa de choque, portando escudos e cassetetes, atravessou a avenida no sentido Consolação–bairro, como se varresse a rua.
Enquanto a fileira passava, os manifestantes voltavam a fechar-se em blocos nas costas dos policiais, atirando objetos como latinhas de refrigerante, bandeiras e cocos.
Quando voltaram, no sentido oposto, os policiais já jogavam bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral (que lançam inúmeras balinhas de borracha) nos manifestantes, que se refugiaram no vão do Masp.
Daí em diante, os manifestantes continuaram provocando e chegaram a explodir rojões no vão do museu, onde estavam refugiados. A polícia, por sua vez, jogava bombas sucessivamente, até mesmo no vão do Masp e em direção ao carro de som, de onde os organizadores pediam, inutilmente, que os grevistas não provocassem ou aceitassem provocações.
Depois de tentativas de acordo, feitas pelo deputado estadual Jamil Murad (PC do B) e pelo federal Professor Luizinho (PT), houve o cessar-fogo de ambas as partes.
Em meio à confusão, os professores estaduais decidiram continuar a greve por tempo indeterminado. O comando do protesto decidiu fazer nova manifestação no dia 25.

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