São Paulo, 16 (AE) - Um guarda-civil com nariz quebrado, uma balconista de loja machucada no abdome e um camelô espancado foi o saldo do confronto entre ambulantes e a Guarda Civil Metropolitana, hoje pela manhã, na Lapa, zona oeste de São Paulo. Cerca de cem vendedores ambulantes insistiram em montar suas bancas na Rua Cincinato Pamponet, uma transversal da Rua 12 de Outubro, o "coração comercial" do bairro. Alegando ordens da "administração pública" os guardas-civis impediram.
Na briga, os guardas usaram cassetetes; os camelôs, pedras e barras de ferro que servem para montar as barracas. Segundo a GCM, a culpada pela confusão é a ambulante Ana Maria Pontes Teixeira, de 34 anos, que teria incitado os colegas ao enfrentamento. Ela nega. "O tempo todo eu tentei apaziguar, mas eram muitos e a situação fugiu ao meu controle."
Elizandra da Silva, de 23 anos, vendedora de uma loja de confecções, montava uma banca na calçada em frente da loja quando um segurança a advertiu que deveriam baixar as portas e entrar rapidamente. Não deu tempo. Elizandra levou uma pedrada na barriga. "Pensei que fosse um tiro", contou mais tarde, na delegacia, queixando-se de dor e fome. "Eles deviam bater no Pitta não em mim!"
Fraturas - O guarda-civil Marcos Padula foi socorrido no Pronto-Socorro Sorocabana, com fraturas no nariz e nos dedos da mão direita. Segundo o guarda Ataídes Alves de Oliveira Filho, de 33, que comandou a operação, Ana liderava o movimento e incitava a violência, alegando possuir autorização da Regional da Lapa para montar as barracas. Ana argumenta que os guardas não têm controle emocional para lidar com situações de tensão. "Temos sim, em nenhum momento sacamos nossas armas", disse Oliveira Filho.
Quatro camelôs foram detidos e levados ao 7.º Distrito Policial. No boletim de ocorrência, o delegado Aloísio Pires de Araújo os arrolou como "averiguados" por lesão corporal dolosa
resistência à prisão e dano. O paulista Paulo Caires Barbosa, de 21 anos, o cearense José Umbelino Filho, de 34, o paranaense Antonio Marcos Viotto, de 28 e o baiano Jessé Pereira Santos, de 29, negam ter agredido os guardas e atirado pedras.
Com ferimentos por todo o corpo, Santos foi levado para a delegacia onde permaneceu algumas horas, com os outros. O delegado não pediu exame de corpo de delito alegando que o camelô machucou-se "na resistência" à prisão. "Estou abismado", disse o advogado Roberto Ribeiro. "Se essa autoridade não pede o exame, vou à Corregedoria." De acordo com o advogado, na delegacia "só vale a palavra dos metropolitanos".
Clima tenso - Fora da delegacia, Santos, vendedor de iogurte e cartões telefônicos, chorou, tirou a camisa e exibiu os ferimentos. "Apanhei dentro do carro", contou. "Meus documentos ficaram com aquele guardinha ali que falou que ia me pegar outra vez." Saiu carregado da delegacia para o hospital.
Durante o resto do dia, o clima permaneceu tenso na Rua 12 de Outubro. Dez veículos da Guarda Civil e da Polícia Militar ficaram parados lá enquanto dezenas de policiais circulavam e garantiam o trabalho da fiscalização. Mesmo assim, os camelôs trabalhavam expondo a mercadoria dentro dos carros, que eram rapidamente fechados quando os guardas se aproximavam. "Perseguem como se a gente fosse ladrão", reclamou Antonio Lucena, de 45 anos, que escondia copinhos de água numa Variant ano 73.
Outros ofereciam óculos escuros, cotonetes, meias, cuecas, relógios e outras coisas miúdas e corriam ao ouvir o aviso do "rapa". Pisando duro, os guardas recolhiam camelôs e mercadorias. "Estão levando qualquer coisa, levando mixaria", resmungou Lucena. "Não sei por que não vão atrás dos ladrões de verdade", comentou a dona de casa Maria Lúcia de Oliveira, de 29 anos. "Se a gente compra do camelô é porque não tem dinheiro nem para entrar numa loja e eles também precisam trabalhar."

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