Um confronto entre cerca de cem policiais militares e aproximadamente dois mil integrantes do MST, perto da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ontem, no Recife, deixou 12 soldados e pelo menos seis sem-terra feridos, além de duas viaturas e duas motos depredadas. Dois sem-terra, de acordo com o MST, foram baleados, um no abdômen e outro na perna. Cinco pessoas foram presas pela Polícia Federal - um advogado do PC do B, um membro da Igreja Anglicana, um assentado e dois sem-terra.
O conflito teve início às 11h30 e durou 20 minutos. Teve tiros, pancadaria e pedradas. Para impedir que os manifestantes chegassem até a porta do Incra, onde iria ser feito um ato em defesa da reforma agrária, a polícia, que usou até a cavalaria, isolou a área e colocou cavaletes na esquina, desviando o tráfego. Os sem-terra não se conformaram com a proibição e tentaram passar pelos policiais. -
Segundo o coronel Romero Queiroz Ribeiro, que comandava a operação, o empurra-empurra inicial deu lugar à violência porque os sem-terra teriam dado tiros. O coordenador do MST-PE, Jaime Amorim, rebateu afirmando que os sem-terra não portavam sequer suas foices e enxadas, como costumam fazer, ‘‘justamente para mostrar o caráter pacífico’’ de todos os atos realizados no Dia Nacional de Luta em Defesa do Brasil. Ele garante que diante da agressão e dos tiros da polícia é que os sem-terra reagiram.
O líder sem-terra também acusou a polícia de ter destruído os alimentos levados pelos sem-terra para serem consumidos no almoço. Amorim responsabilizou o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, pelo ocorrido. ‘‘Ele não poderia deixar a marcha do MST terminar em paz, para tentar ligar a imagem do movimento à violência’’, disse.
Feridos Os dois sem-terra que teriam sido baleados não foram localizados, mas testemunhas garantem que viram as vítimas. A integrante da direção do movimento, Rubineusa de Souza, e o sem-terra do acampamento Bela Vista, em Escada, na zona da mata, Edmílson Caetano Alves, afirmam ter visto um homem com a barriga ensanguentada. ‘‘O soldado pegou ele e lhe deu um tiro à queima-roupa’’, disse Alves.
No Hospital da Restauração foram atendidos quatro sem-terra, com hematomas e pancadas. Ferida, Valeriana dos Santos Pereira, estava sob custódia da Polícia Federal por ter sido presa. Os outros presos são o advogado Ricardo Campos, o reverendo Marcos Cosmo da Silva, o assentado Cláudio Firmino e o sem-terra Josias de Barros Ferreira.
Educação O MST realizou um ato em defesa da educação, pela manhã, no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e à tarde, fez protesto de 15 minutos defronte ao consulado norte-americano, contra o FMI, o governo Fernando Henrique e a participação dos Estados Unidos na guerra na Iugoslávia.
O superintendente regional do Incra suspendeu os trabalhos no órgão durante todo o dia e lamentou o confronto. Segundo ele, isso poderá representar um retrocesso nas negociações que vinham sendo feitas entre os sem-terra, Incra e governo do Estado para beneficiar acampados e assentados.

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