Washington, 13 (AE) - Até no mapa da Rússia é difícil localizar o Daguestão. E poucos entendem como um pequeno território de 50 mil quilômetros quadrados represente hoje uma ameaça à soberania russa. Mas para Sergei Arutiunov, um especialista da região, esse conflito não chega a ser uma surpresa.
"O Daguestão fica no Cáucaso, que sempre foi um barril de pólvora", explica Arutiunov. "Existem 50 povos no Cáucaso, cada qual com a própria história e cultura, que se odeiam e odeiam os russos. Se examinarmos a situação de perto, concluiremos que existem 1.225 possibilidades de conflito - e alguns deles já estouraram."
Arutiunov previa conflitos no Cáucaso desde os tempos em que a Rússia era a maior das 15 repúblicas da União Soviética - a superpotência que implodiu em 1991. É um dos poucos a entender a complexidade da região. E entender apenas o Daguestão já é difícil.
Conhecido como "Montanha das Línguas", o Daguestão abriga 32 povos com nomes impronunciáveis, cada qual falando o idioma próprio e a maioria muçulmana sunita. Eles só se uniram no século passado por causa de um inimigo comum: o império russo, contra o qual lutaram durante 30 anos, antes de ser dominados em 1859.
Sob o domínio da União Soviética, avares, darguines, koumyks, laks, tabassarans, rutuls, tsakhurs, aguls, tats e os judeus da montanha ficaram conhecidos como um só povo: os daguestaneses. E passaram a se comunicar em russo, a única língua que tinham em comum.
Mas, nesta década, os nacionalismos e o islamismo radical voltaram a brotar, ameaçando não apenas a integridade territorial russa - mas do próprio Daguestão.
Os lezguiens (um povo do sul do Daguestão) já manifestaram o desejo de se separar dos demais para se juntar aos lezguiens do Azerbaijão. Os koumyks tiveram suas desavenças com os avars.
Visto de forma isolada, o Daguestão é a continuação da Chechênia - outra república do Cáucaso, cuja resistência aos czares russos inspirou Leon Tolstoi a escrever Guerra e Paz e, em 1994, voltou a se rebelar contra a Rússia de Boris Yeltsin. A guerra durou dois anos e jamais foi concluída. Mas não foi a única nem - segundo Arutiunov - será a última do Cáucaso.
Já houve o conflito entre o Azerbaijão e a Armênia (duas ex-repúblicas soviéticas no Cáucaso) pelo enclave de Nagorno-Karabach. "Mas os azeris (principal etnia do Azerbaijão) tem disputas com os curdos e os talish, no sul do país, e os lesquis no norte", explica Arutiunov.
Na Georgia (outra ex-república soviética no Cáucaso) também já estouraram conflitos sérios, ainda nos tempos em que o Exército Vermelho tinha poder. Os 60 mil ossétios tentaram se separar para se juntar com seus irmãos ossétios da Rússia. E os abhazos também lutaram por sua independência.
Os povos do Cáucaso já se rebelaram contra a Rússia dos czares, a ditadura comunista de Josef Stalin, e o governo de Boris Yeltsin. E já lutaram entre si. Mas todos os conflitos tem algo em comum, foram longos e sangrentos.

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