Paris, 27 (AE-AP) - Já nos defrontamos com uma guerra muito suja em Kosovo. Será que estamos na véspera de um outro incêndio
numa outra região do mundo, aliás, uma das mais perigosas? Depois de ter calcinado as montanhas balcânicas, o fogo atacará os flancos do mais alto maciço do mundo, o Himalaia, ou, mais exatamente, a Caxemira?
A Caxemira é uma região de maioria muçulmana compartilhada pela Índia e pelo Paquistão desde 1949 - duas enormes potências surgidas das antigas Índias britânicas que, desde sua independência, já travaram três guerras, duas delas por causa precisamente da Caxemira, dilacerada entre dois Estados inimigos.
O pretexto? Os bandos de guerrilheiros separatistas que semeiam a desordem na parte indiana da Caxemira. Eles são muçulmanos (como a maioria da população da região) e rejeitam o poder de Nova Délhi, que, pelo contrário, é quase todo controlado por hindus. Ou seja, aos olhos dos indianos, esses separatistas muçulmanos não estão agindo sozinhos. Nova Délhi garante que são controlados, armados e, talvez, orientados pelo Estado vizinho, o Paquistão, que, por sua vez, é muçulmano. É nesse fato, por se tratar de dois Estados gigantescos, que se verifica a extrema gravidade dessas ações de guerrilheiros muçulmanos e soldados indianos.
àdio visceral - Essas escaramuças entre guerrilheiros separatistas e soldados indianos são frequentes e antigas. Por isso, normalmente ninguém lhes dá muita importância.
Desta vez, porém, o conflito atingiu um novo nível de perigo, pois o governo de Nova Délhi, exasperado e persuadido de que o Paquistão está tentando desestabilizar a Índia, replicou violentamente, bombardeando os bandos guerrilheiros muçulmanos com seus MiGs e Jaguares, apoiados por helicópteros. Ao mesmo tempo, considerável movimento de tropas está ocorrendo nos dois lados da linha fronteiriça.
Por que esse ataque aéreo está difundindo terror na região, inquietando todas as chancelarias?
Primeiramente, por causa do ódio visceral entre paquistaneses e indianos, depois de terem travado três guerras e de a Índia ter apoiado a secessão de uma parte do Paquistão, hoje denominada Bangladesh. E, também, pelo fato de os chefes dos governos de Nova Délhi e Islamabad encontrarem-se numa situação política interna instável, sobretudo a Índia, cujo governo caiu quando o país atravessa justamente em um período pré-eleitoral.
Outra razão de pânico: tanto a Índia quanto o Paquistão são potências atômicas. Há um ano, a Índia explodiu sete bombas nucleares. Logo em seguida os paquistaneses retrucaram, realizando seis testes nucleares para demonstrar sua força.
Esse duelo sinistro inquietou as potências ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, que impuseram sanções aos dois países. Passado o sermão americano, Nova Délhi e Islamabad esforçaram-se para melhorar suas relações. Em fevereiro, o primeiro-ministro indiano Atal Bihari Vajpayee visitou Islamabad oficialmente para selar a reconciliação em um encontro com seu homólogo paquistanês, Nawaz Sharif. Mas essa paz só durou três meses, como se vê no novo incêndio na Caxemira.
Além do enfrentamento entre Índia e Paquistão, toda a região é sensível, ainda mais pelo fato de ser cercada por países de maioria muçulmana, alguns deles com governos fanáticos.
Certas fontes asseguram que os guerrilheiros muçulmanos da Caxemira são aconselhados e financiados pelo governo paquistanês e também são apoiados principalmente pelos "soldados do Alcorão" vindos do vizinho Afeganistão - esses terríveis talebans que ocuparam o território afegão, sem disparar um único tiro, e aí instalaram uma ordem islâmica mais implacável do que a que reinava no Irã nos grandes tempos do integrismo.

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