Conflito em Kosovo devolve o 'anti-americanismo' aos franceses Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 09 (AE) - As bombas da Otan sobre Kosovo terão tido pelo menos um resultado feliz para a França: permitir que este país se entregue ao prazer perverso, quase erótico, do "anti-americanismo", uma das paixões mais inebriantes do povo francês.
Já estava na hora. Desde o fim da Guerra Fria, na década de 90, o anti-americanismo foi diminuindo, a ponto de se converter apenas numa velha lembrança, meio comovente. Mas isso acabou se tornando uma coisa enervante! Os intelectuais franceses só sonhavam com Harvard e Berkeley. Os esquerdistas iam buscar seus modelos em Nova York ou em Montana. E se, durante um jantar, você fizesse uma observação a respeito da tolice dos norte-americanos, a dona da casa reclamava com certa indulgência e fazia entender que você estava meio atrasado, um pouco ultrapassado e era quase tão "kitsch" quanto um romance de Marcel Proust.
A guerra de Kosovo mudou tudo isso. Acreditaríamos ter voltado às grandes épocas do anti-americanismo: fim do século 18
depois da Guerra da Secessão, ou durante a Guerra Fria. Durante todo o tempo dos ataques aéreos da Otan, os jornais franceses publicaram diatribes contra a hegemonia norte-americana, a arrogância, a falta de cultura, etc. dos homens de Washington, contra a astúcia desse Bill Clinton, dessa Albright, que usaram Kosovo (que para eles não interessa nada) como pretexto para impor a vasta "griffe" americana no coração do Velho Continente.
E como uma felicidade nunca vem sozinha, os franceses puderam deliciar-se saboreando uma segunda "grande caça": a Inglaterra
inimiga hereditária da França, e que escolheu, como determina sua história e sua geografia, ficar apaixonadamente no campo americano. Houve um golpe duplo: num mesmo artigo, os franceses se desforraram da América e deste Tony Blair, que é socialista. "O quê? Socialista, esse Tony Blair? Imaginem só!...
Com certeza, este anti-americanismo se manifesta em diversos níveis: frequentemente, pertence à categoria do "anti-americanismo visceral" (isto é , medonho, terrível, que pertence à mesma figura de retórica que o antigo "anti-comunismo primário").
Mas existe também um anti-americanismo de talento, de alta cultura, de porte nobre, incorporado por alguns verdadeiros e grandes intelectuais, como Max Gallo, ou ainda o diretor da revista Marianne, Jean-François Kahn, ou ainda este grandíssimo intelectual e escritor impressionante, Régis Debray.
Como explicar este anti-americanismo? Como um todo, ele escapa às antigas análises que eram ideológicas: os Estados Unidos eram denunciados como o motor e o símbolo do capitalismo.
Hoje em dia, esse tema parece defasado. O anti-americanismo moderno é professado sobretudo em nome do "nacionalismo", vai contra tudo o que ameaça afogar este objeto sacralizado por dois mil anos de história: a nação francesa.
Neste sentido - e aqui está o paradoxo - os intelectuais que investem contra a União Européia e a América são os mesmos. Nos dois casos, o receio é o mesmo: que o "Estado-Nação" não se dilua em vastos conjuntos abstratos - a Europa, o Ocidente, a globalização - esses abismos no fundo dos quais o Estado, inventado por Clovis, Luis 14, Napoleão e os republicanos, corre o risco de se afundar e desaparecer.





