Uniflor - O agricultor assentado Emílio José Teixeira, 26 anos, baleado na noite de anteontem, durante um conflito entre sem-terra acampados e funcionários de uma fazenda em Uniflor (49 km de Maringá), permanecia internado ontem no Hospital Universitário de Maringá. Teixeira levou dois tiros de raspão e um outro na nádega direita que se alojou na barriga. Os médicos conseguiram retirar a bala que foi encaminhada para perícia no Instituto de Criminalística da Polícia Civil de Maringá. O estado de saúde dele era considerado estável.
Teixeira é casado e mora com a mulher e dois filhos no Assentamento São José (antiga Fazenda Doralucia) em Cruzeiro do Sul (64 km de Maringá). Ele atua como militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e estava no acampamento, formado desde terça-feira no trevo de entrada da Fazenda Pitanga, divisa com a Fazenda Roma. Segundo os sem-terra, pelo menos oito homens montados em cavalos, armados e encapuzados passaram a disparar da divisa da Fazenda Roma contra o acampamento, por volta das 20 horas. Um carro do MST que havia acabado de chegar no local com cobertores para os acampados ficou com diversas marcas de tiros. Um dos sem-terra quase foi atingido na cabeça e ficou com o chapéu furado por bala.
Meia hora depois do conflito, viaturas da Polícia Militar estiveram no acampamento, mas nenhum pistoleiro foi localizado. Logo pela manhã, o comando do 8º BPM de Paranavaí, conseguiu um mandado de busca e apreensão para fazer uma vistoria na Fazenda Roma. Segundo o comandante, major Marcos de Castro Palma, a polícia não pediu um mandado para a Fazenda Pitanga porque os disparos partiram da Roma. Por volta das 11h35 de ontem, cerca de 50 homens da PM entraram na fazenda. A imprensa foi impedida de acompanhar a operação. O delegado da Polícia Civil, em Nova Esperança (35 km de Maringá), Valdir Samparo, disse que encaminhou para a perícia cartuchos de espingarda 12 e de revólver calibre 38 localizados na Fazenda Roma pela PM.
Samparo abriu inquérito para investigar as circunstâncias do conflito e começou a ouvir os acampados. O delegado vai esperar a recuperação do assentado ferido e pretende ouvir a partir de hoje fazendeiros da região.
Durante todo o dia de ontem, o MST e a União Democrática Ruralista (UDR) trocaram acusações sobre a responsabilidade do conflito na noite de quinta-feira. O presidente da UDR, Marcos Prochet, disse que as agressões partiram dos sem-terra e que um disparo atingiu no peito um funcionário da Fazenda Roma. Prochet contou que a bala não perfurou a pele e parou na jaqueta do funcionário, mas o impacto teria causado lesões na musculatura. A Polícia Civil informou que não houve registro de ocorrência por parte da fazenda Roma. No final da tarde, o MST enviou nota à imprensa acusando o líder da UDR de ter comandado os disparos contra o acampamento.
Um dos coordenadores do MST, Jaques Pelens, disse ontem que a invasão teve o objetivo de consolidar um novo acampamento na região e de chamar a atenção do governo para as questões agrárias. ''Não estamos interessados nestas fazendas (Pitanga e Roma) e nos decidimos por este local para pressionar o governo pela reforma, mas sem intenção de ocupar as propriedades'', afirmou Pelens. O coordenador disse ainda que o MST está aberto aos interessados em engrossar as fileiras do movimento em busca de terra. ''Vivemos um período de repressão no governo (Jaime) Lerner e agora, com o (Roberto) Requião acreditamos na abertura de um dialógo sobre as questões de terra e de miséria no campo'', afirmou Pelens.

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