Conflito de Kosovo marcará o mundo por muito tempo Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 07 (AE) - O brusco endurecimento dos sérvios na véspera da paz não surpreendeu verdadeiramente o Velho Continente. Não apenas por causa da desconfiança provocada pela personalidade astuta, tortuosa, mentirosa de Slobodan Milosevic, mas também por causa de numerosos pontos frágeis do esquema que deveria pôr um fim à guerra.
O ponto mais duvidoso é exatamente sobre a personalidade de Milosevic, cujo cinismo não se importa em nada com os sofrimentos suplementares e inúteis que poderá infligir a seu povo. Sobretudo depois que o Tribunal de Haia decidiu submetê-lo a julgamento como criminoso de guerra. Milosevic não estaria pretendendo protelar a paz a fim de apagar os sinais dos estragos causados por seus soldados e sobretudo por suas forças especiais, sua polícia, nas cidades de Kosovo?
Outro ponto sombrio: a Rússia. Com certeza, Chernomyrdin agiu habilmente e com eficácia para construir a paz. Conseguiu. Mas, na própria Rússia, forças poderosas - o Exército, por um lado, e os partidos de extrema direita e de extrema esquerda, por outro - estão furiosas. Acham que a Rússia abandonou os eslavos, que são os sérvios, e deixou que a OTAN - ainda sua grande inimiga - e os Estados Unidos governem o mundo, em detrimento de todas as outras potências, inclusive da Rússia.
- A OTAN continua a comportar-se como senhora absoluta em todos os assuntos. Indiferente aos aliados da América, a OTAN decide sozinha, como Deus-Pai, recusa-se a negociar, exige uma capitulação incondicional da Sérvia (como os aliados teriam exigido de Hitler).
- A ONU foi descartada de todos os assuntos. Alguns afagavam a esperança de que as Nações Unidas, colocadas fora do jogo pela OTAN ao longo da guerra, poderiam reintroduzir-se no taboleiro de xadrez no momento em que a região reencontrasse a paz. Mas, ainda neste ponto, a ONU foi marginalizada pela OTAN.
- Com certeza, é compreensível que a OTAN faça questão de não se desvencilhar de suas responsabilidades na primeira fase do retorno à paz e insista em conservar a responsabilidade sobre os 50 mil homens da nova força de pacificação em Kosovo (KFOR).
Em contrapartida, Kofi Annan insiste para que a ONU supervisione a instalação do protetorado internacional provisório sobre a região de Kosovo.
Por último, a Europa foi clamorosamente ignorada desde o início desta questão - com exceção da Inglaterra que, como de costume, ficou colada aos Estados Unidos como sua sombra. E a Europa parece não estar sendo consultada na fase delicada do retorno à paz. Para dizer a verdade, o inconveniente não é tão grande assim, porque os dois principais países europeus (com exceção da Inglaterra), isto é, a França e a Alemanha, seguem docilmente Washington desde o início do drama kosovar.
Entretanto, a reconstrução de Kosovo será em grande parte confiada aos europeus (cerca de 5 a 6 bilhões de euros por ano durante cinco anos pelo menos). Portanto, a União Européia deveria no futuro fazer ouvir sua voz. Por este motivo, alguns acham que a solução ideal para o futuro "protetorado" que durante três anos governará Kosovo seria um acordo de compromisso: um alto administrador civil seria um europeu.
Mas essse europeu agiria sob a égide da ONU.
Provavelmente, todos os obstáculos atuais serão superados e a paz voltará um dia não muito distante. Mas uma coisa é certa: o terremoto "sérvio-kosovar" irá transtornar por completo toda a paisagem geopolítica de nosso tempo.





