Conflito de interesses deve deixar Cimeira sem resultado prático
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quinta-feira, 24 de junho de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 25 (AE) - A reunião de cúpula América Latina e União Européia, a chamada Cimeira, que começa segunda-feira no Rio de Janeiro, não deve trazer resultado prático algum, nem mesmo depois de iniciadas as negociações que prevêem a criação de uma zona de livre-comércio entre o Mercosul e a União Européia. As prioridades dos dois blocos são definitivamente opostas.
Embora o Conselho Europeu (órgão máximo da UE) tenha dado o mandato negociador à Comissão Européia (órgão executivo), o Acordo de Luxemburgo, assinado na segunda-feira, deixa muito claro que as negociações com o Mercosul e com o Chile "terão de ser conduzidas e concluídas levando em conta os resultados da nova rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio", a Rodada do Milênio a ser lançada em novembro, em Seattle (EUA). A rodada deve começar no ano 2000.
O ex-secretário de Estado de Assuntos Europeus, de Portugal, Vitor Martins disse categoricamente a empresários paulistas que as prioridades 1, 2 e 3 da União Européia São os setores de "serviços, serviços e serviços". "A posição européia está fechada nessa frente e 90% de sua atenção está e estará voltada para essas áreas na Rodada do Milênio", afirmou Martins, durante o Fórum Euro-Latino-Americano, em São Paulo.
De acordo com ele, a meta dos países europeus é conseguir maior abertura nos setores de telecomunicações, serviços financeiros e sanemento básico (água potável e esgoto), entre outros. Depois dessa três prioridades, acrescentou Martins
vem a área de proteção aos investimentos.
Por sua vez, o Mercosul também tem outras prioridades, antes mesmo de fechar posição sobre a Alca, prevista para entrar em vigor a partir de 2005, e da zona de livre comércio com a UE, ainda sem data definida para seu início. "O grande desafio do Mercosul é construir um mercado comum que puna o protecionsimo, coisa que a UE não fez", disse à AGÊNCIA ESTADO o embaixador Luis Felipe de Seixas Corrêa, secretário-geral de Relações Exteriores.
De acordo com o embaixador, o Mercosul ainda está na fase final de uma união aduaneira imperfeita, que terá de ser todavia consolidadada para chegar a um verdadeiro mercado comum, como políticas macroeconômicas homogêneas e harmonizadas.
Sobre a questão agrícola, que aflige os países latinoamericamos, principalmente os do Mercosul, Vitor Martins, que também fez parte da Comissão Européia, afirmou que a Europa terá, durante a Rodada do Milênio, "uma posição extremanente defensiva".
"Agora que não faço mais parte do governo português e que represento a iniciativa privada, posso dizer, sem nenhum temor, que os interesses europeus são esses e nos quais já têm uma posição fechada para as futuras negociações", afirmou Martins.
As declarações de Martins apenas reforçam o que o acordo de Luxemburgo expressa: "A UE aceita liberalizar, de forma gradativa e recíproca, todo o comércio de bens e serviços com a intenção de chegar a uma zona de livre comércio, levando em conta a sensibilidade de determinados setores de produtos e serviços e de acordo às normas da OMC".
Embora a posição do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além do Chile, seja a do sistema "single undertaking" (tudo se negocia e tudo terá de ser aprovado para entrar em vigor), a França vai mesmo querer negociar a questão agrícola excluindo produtos sensíveis que podem afetar o seu mercado (açúcar, cereais e carne).


