Confisco da poupança completa 10 anos14/Mar, 20:29 Por Carlos Franco São Paulo, 14 (AE) - Há dez anos, na manhã do dia 15 de março de 1990, empresários e políticos envergaram ternos para participar da cerimônia de posse, em Brasília, de Fernando Collor de Mello. O primeiro presidente eleito pelo voto direto do País após o golpe militar de 31 de março de 1964. Naquela mesma manhã, Rogério Fasano, filho de uma família que é grife da boa comida paulistana, levantou cedo para supervisionar as obras de uma luxuosa casa que planejava abrir nos Jardins, na zona sul da capital, em abril. E, como todo brasileiro, deu uma espiada na cerimônia da posse de Collor Rogério Fasano só não esperava que, 24 horas após a festiva posse, tudo iria mudar. No dia 16 de março de 1990, Collor não se limitou a apresentar sua equipe de governo. Delegou à então toda poderosa ministra da Economia (pasta que reunia Fazenda e Planejamento), Zélia Cardoso de Mello, a missão de anunciar um plano econômico que daria conteúdo à expressão confisco. E fez com que, do dia para a noite, todos os brasileiros ficassem reduzidos a 50 mil cruzeiros novos nas contas bancárias. Fasano, como milhões de cidadãos comuns, daqueles que as lentes do cineasta Walter Salles Jr., filho do poderoso banqueiro do Unibanco, captou em "Terra Estrangeira", ficou perplexo com as medidas adotadas por Collor para derrotar a inflação que havia chegado ao nível de 84% ao mês. E como todo mundo, nos bares e nas ruas, não entendeu o que a ministra explicava. "Era uma coisa maluca", disse. "Tive de adiar a inauguração do restaurante, porque ninguém tinha dinheiro, nem eu para continuar a obra e lembro que a Zélia disse que não havia lugar para restaurante de luxo." Fasano classifica o que sentiu de "um golpe" e recorda que abriu as portas do restaurante em junho. De uma só tacada, no entanto, a equipe econômica de Collor retirou da economia algo em torno de US$ 100 bilhões, ou o equivalente naquela época a 30% do Produto Interno Bruto (PIB). Deu certo. A inflação caiu para 3%. Mas a mágica não durou muito. No terceiro mês, a inflação voltava ao nível de dois dígitos, fechando a 12%. E, em fevereiro de 1991, depois de um festivo revéillon em Angra dos Reis, no litoral fluminense, em que Zélia e Collor divertiram-se em luxuosos iates, foi anunciado o Plano Collor 2. Uma nova tentativa de barrar a inflação. Também sem sucesso. Mas foi o Collor 1 ou o popular confisco que marcaria toda uma geração de brasileiros - certamente quem tem mais de 28 anos deve se lembrar de planos pendentes pela escassez de moeda. Mas mesmo com toda a firmeza do início, entrou água no próprio plano. Torneiras foram abertas para atender a casos específicos, como doentes que dependiam de recursos da até então sagrada caderneta de poupança - que não foi poupada -, empresários que precisavam honrar folhas de pagamento, e trabalhadores que tinham direito a sacar o FGTS. Enfim, uma série de imprevistos não previstos pela equipe que comandou o confisco e o congelamento, por 45 dias, de preços e salários. A própria Zélia admitiria, depois, publicamente, que muita coisa foi improvisada dada a tensão das reuniões de sua equipe da qual fazia parte, entre outros, Antônio Kandir (hoje deputado federal pelo PSDB/SP), Eduardo Modiano (hoje administrador de bens da família), Ibrahim Eris (sócio da Linear uma administradora de ativos financeiros), Luís Eduardo Assis (hoje diretor do HSBC) e Luiz Roberto Gonçalves (ex-sócio do FonteCindam, que foi à lona com a desvalorização do real em janeiro de 1998). Tanto que a quantia a ser confiscada teria sido decidida no popular jogo do palitinho. Nada de mais para Zélia, que narra em sua própria biografia escrita pelo mineiro Fernando Sabino, que escolheu Eris para a presidência do Banco Central (BC) por acaso, pois havia pedido à telefonista que ligasse para Ibrahim Elias, outro economista, mas essa se confundiu e ligou para Eris.

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