Conferência reúne 2 mil índios de 188 nações em Cabrália, BA
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Roldão Arruda 
Cabrália, BA, 18 (AE) - Cerca de 2 mil índios reuniram-se hoje, em Santa Cruza de Cabrália, a 22 quilômetros de Porto Seguro, no litoral sul da Bahia, para a abertura da Conferência Indígena do Brasil. Eles representam 188 nações do País - desde os arredios ianomâmis, que vivem em reservas de Rondônia, aos tupinambás, da Bahia, que lutam para ser reconhecidos como índios, após passarem por séculos de mestiçagem com outros grupos étnicos. Os xavantes, que normalmente não participam de encontros com outras nações, também estavam presentes. Desde o tempo dos debates da Constituinte, há mais de 12 anos, quando caravanas de índios foram a Brasília defender seus direitos, não acontecia um encontro tão grande.
Organizado pelo Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib), o encontro prossegue até o dia 21. No dia seguinte, os representantes dos índios pretendem encontrar-se com o presidente da República para entregar-lhe uma mensagem na qual vão descrever a situação do índio no Brasil, seus problemas, e apresentar uma série de reivindicações.
Durante toda a tarde de hoje os diferentes grupos apresentaram-se aos outros por meio do toré - uma dança ritualística, com a qual chamam os espíritos e que é utilizada em vários tipos de celebrações. Na aldeia, os índios chegam a dançar o toré durante horas.
O clima era de alegria, com um indisfarçável orgulho. Muitos exibiam o rosto e o o corpo pintados com o vermelho do urucum e o preto do jenipapo. Outros usavam cocares, outros saiotes de palha. Na opinião de um dos principais líderes do encontro, o macuxi José Adalberto, de Rondônia, era como se todos procurassem deixar para trás séculos de humilhação, nos quais têm sido sistematicamente chamados de preguiçosos, incompetentes, incapazes, inúteis.
Lá estavam os parintintins, ticunas, nambikaras, tuparis
suruis, jaminawas, tucanos, apuranãs, xananawas, kaxixos e dezenas de outros povos. Havia índios negros, brancos, loiros, de olhos verdes - exibindo a mistura de raças pela qual os povos passaram. Alguns portavam telefones celulares e modernas filmadoras. Outros mostravam o perfil esquálido do subnutrido.
Magno, tupinambá, de 24 anos, morador de Olivença, no interior da Bahia, é um bóia-fria, que ganha R$ 4,50 por jornada trabalhada. Nos dias em que estiver em Porto Seguro, representando seu grupo, não vai ganhar nada. Ele torce para o Palmeiras e sua música preferida é o reggae. Antonio Carvalho, guarani de Boa Esperança, no Espírito, tem cabelos longos e negros, traços indígenas marcantes e pinta o rosto e o torso com urucum e jenipapo. Da cintura para baixo, porém, veste-se como um caubói, com cinto de couro com detalhes em metal, calça apertada e bota de bico fino.
Estatuto - Um dos principais temas do encontro é a questão da reforma do estatuto do índio, que está em discussão no Congresso Nacional. Um grupo de índios advogados está estudando o assunto e apresentará uma série de propostas para o debate. O tema mais polêmico, porém, é a questão da organização dos índios. Eles reivindicam uma autonomia cada vez maior para administrar seus recursos e também para decidir seus rumos. Há grupos que defendem um distanciamento das organizações não-governamentais que os assessoram, especialmente o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), uma entidade quase onipresente no encontro.
Comemoração - Os índios, segundo representantes da organização, não devem participar das celebrações oficiais do descobrimento. Mas até agora também não está definido se irão protestar contra elas. Diante da notícia de que representantes do governo da Bahia estariam mobilizando um grupo de índios que aceitam participar das celebrações oficiais, as manifestações foram de indiferença. "Não vamos brigar com nossos irmãos", disse o macuxi José Adalberto. "Tenho a esperança de que um dias eles compreendam o valor da luta pelos nossos direitos e se unam a nós."
Cabrália foi o local onde a esquadra do almirante Pedro álvares Cabral ancorou em abril de 1500. Numa de suas praias, conhecida como Coroa Vermelha, foi rezada a primeira missa no Brasil, no dia 26 de abril de 1500, um domingo de Páscoa. Os nativos observaram tudo de longe, surpresos com a complexidade do ritual, muito diferente do toré.


