Haia, 21 (AE)- A conferência ministerial do Fórum Mundial da água teve início hoje (21) em Haia, na Holanda, com claros pontos de divergência nas entrelinhas dos discursos otimistas da sessão solene. O documento-base, sobre o qual trabalharão os ministros até amanhã, foi considerado fraco, cheio de salvaguardas e sem compromissos ou cronogramas concretos pelos representantes das organizações não-governamentais, ONGs, incluindo sindicatos e associações de cunho social, além dos ambientalistas.
Algumas das reivindicações e críticas das ONGs, feitas nos últimos dias, porém, foram respondidas pelo Príncipe de Orange, Willem-Alexander, em seu pronunciamento. Ele se mostrou disposto a continuar discutindo todas elas de forma aberta, transparente e participativa, desde que os protestos fossem civilizados. Aludia explicitamente ao primeiro dia do fórum, quando membros do movimento contra barragens se manifestaram, tirando a roupa no plenário.
O príncipe endossou, por exemplo, a declaração das mulheres, que pedem direitos iguais a participação e voto nos mecanismos de decisão sobre uso prioritário da água, o que, no Brasil, seriam os comitês de bacias criados pela nova legislação e política de recursos hídricos. Willem Alexander ainda pediu desculpas pela falha na tradução simultânea, disponível apenas para as reuniões diplomáticas e não para todo o fórum, o que dificultou a participação de quem não falava inglês.
Já a reivindicação dos ambientalistas - defendendo a inclusão da proteção aos ecossistemas e mananciais de água entre as metas principais do fórum - foi encampada pela ministra holandesa, Eveline Herfkens, do Desenvolvimento e Cooperação. Mas as duas principais arestas dos bastidores do fórum ainda devem ser aparadas na conferência ministerial. São elas: a cobrança da água e a soberania dos países, que dividem rios ou reservas de água internacionais.
Todos os relatores oficiais do fórum concordam que o direito de acesso à água limpa e segura é universal. Mas advogam a cobrança integral dos serviços relacionados à água, com subsídios restritos apenas aos mais pobres. Defendem a parceria entre o setor público e privado, no lugar do atual monopólio estatal, prevalecente na maioria dos países. Isso vem sendo entendido, nos corredores do fórum, como um reforço à privatização, negado nos discursos oficiais. "Não queremos sair do monopólio estatal para o monopólio privado", disse o Príncipe de Orange. "Acreditamos que a água é uma herança comum e deve ser tratada como um recurso de propriedade comum. Estamos falando de direito ao uso, não direito à posse".
O jogo de palavras esboça a questão da soberania, discutida ontem (20), numa concorrida sessão, com a moderação de Mikhail Gorbachev, que trocou o vermelho da ex-URSS pela Cruz Verde Internacional, entidade que agora preside. Esteve na pauta a criação de um organismo internacional para regular o gerenciamento da água em rios ou reservas subterrâneas internacionais. Uma possibilidade capaz de reavivar o velho temor de internacionalização da Amazônia, onde flui quase 20% da água doce do planeta.

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