Conferência elogia engajamento popular
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quinta-feira, 13 de março de 1997
Agência Estado, do Rio de Janeiro 
Luiz Prado/Agência EstadoPresenteO cacique xavante Aniceto Tsuazawere oferece cocar ao presidente do Conselho da Terra, Maurice StrongO presidente do Conselho da Terra, Maurice Strong, propôs ontem, na abertura da Conferência Rio+5, uma forma de atuação diferente daquela que a antecedeu e inspirou: a Rio-92. O evento pretende ser a expressão do engajamento da sociedade civil na questão ambiental. Segundo Strong, a participação da sociedade foi responsável pela manutenção dos compromissos da Agenda 21, documento elaborado na conferência Rio-92, cuja avaliação é o objetivo da Rio+5. Durante essa semana, vocês vão ouvir falar em 1,8 mil agendas 21, elaboradas por municípios, disse. Elas mostram que quando há vontade, é possível fazer alguma coisa.
Strong acrescentou que a Rio+5 pretende fazer uma coisa que nem os países nem as Nações Unidas conseguiram, isto é, juntar todos os aspectos do ambiente em projetos, como as questões relativas ao clima e à preservação de espécies. O problema ambiental é de causa e efeito e deve ser tratado de forma sistêmica, afirmou. Os governos e organizações oficiais ainda não conseguiram fazer isso, vamos deixar os cidadãos mostrar suas idéias.
Durante um ano, o Fórum Rio+5 promoveu consultas a mais de seis mil pessoas de 80 países assim como pesquisas desenvolvidas por organizações mundiais. Os delegados do fórum examinaram mais de 70 relatórios com questões relativas ao desenvolvimento sustentável, incluindo controle de poluição e proteção à diversidade biológica. Outros relatórios focalizam os males à saúde provocados pela degradação ambiental, o papel dos setores financeiros e industriais e avanços no sentido de aproveitamento de energia no futuro.
Para o presidente do Conselho da Terra, houve pouca mudança de curso, em relação ao que foi defendido na Rio-92. Para ele, o crescimento econômico traz custos que serão pagos, em sua maioria, pelos pobres do mundo, se for seguido o modelo econômico dos países já industrializados.
A conferência começou com uma cerimônia indígena, na qual o cacique xavante Aniceto presenteou Strong com um cocar. O cacique, apesar de não representar oficialmente a comunidade indígena, reclamou das mudanças na Fundação Nacional do Índio (Funai), que obrigaram os índios a procurar órgãos diferentes para resolver seus problemas, como de saúde e educação. Em seguida, houve a apresentação do grupo Olodum e a exibição de um vídeo sobre a Rio-92 e os problemas ambientais ainda não resolvidos.
A diretora do Fórum Brasileiro de Organizações Não-Governamentais (ONGs), Kátia Maia, afirmou que o objetivo do Rio+5 é manter um compromisso com a sociedade e com o desenvolvimento sustentado, em vez de tomar decisões específicas em relação à biodiversidade, florestas e clima, como houve na Rio 92. O governador do Rio, Marcello Alencar, também destacou a participação das ONGs para avanços na questão ecológica. As vanguardas vão ter de continuar suas ações, às vezes radicais, para conseguir suas reivindicações, declarou, em seu discurso.
A ausência de avaliação dos compromissos firmados na Agenda 21 irritou militantes ecológicos presentes ao evento. A abertura foi um amontoado de atitudes, e os discursos poderiam ter sido feitos em qualquer conferência, sobre qualquer assunto, em qualquer época, reclamou o presidente do Partido Verde, Alfredo Sirkis. Além de Strong, Kátia e Alencar, também falaram o ministro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis, Gustavo Krause, e o embaixador Flávio Perry, representando o governo federal. Refletindo a pouca ação do governo na área ambiental, Krause apenas elogiou o trabalho das ONGs, segundo ele, visionárias que enxergaram além do seu tempo.
Para Sirkis, é frustrante a ausência de uma avaliação séria da Rio-92 e de denúncias sobre a falta de cumprimento dos projetos elaborados no evento. Para se ter uma idéia, na época, os países desenvolvidos comprometeram-se a aplicar em torno de US$ 100 bilhões em projetos ambientais nos países desenvolvidos e só enviaram US$ 1 bilhão, ou seja, 1% do que foi prometido, lembrou Minc. E houve pressão de lobbies desses países contra a Carta do Rio, como a das indústrias automobilística e farmacêutica.


