Concurso elege nome pouco conhecido como "Gaúcho do Século"
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segunda-feira, 02 de agosto de 1999
Por Ayrton Centeno 
Porto Alegre, 03 (AE) - Nem Érico Veríssimo, Mário Quintana ou Getúlio Vargas. O primeiro colocado no concurso "Vinte Gaúchos que Marcaram o Século", promovido pela Rede Brasil Sul (RBS/TV), foi o médico José Mariano da Rocha, fundador da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), de Santa Maria, no centro do Estado, pouco conhecido fora da sua região. Mariano da Rocha desfrutou de breve notoriedade na política estadual: em 1978, candidatou-se ao Senado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação ao regime militar. Foi um dos três candidatos da Arena que, apesar de todos os votos somados, ficou atrás do único candidato do antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Pedro Simon.
O coordenador do projeto na RBS/TV, Gilberto Perin, explicou a surpresa pelo "envolvimento da comunidade" no concurso. Ou seja, pessoas e instituições da comunidade de Santa Maria fizeram campanha intensa por Mariano da Rocha, que morreu no ano passado. Os cupons foram publicados no jornal "Zero Hora", distribuídos nas sedes regionais da RBS-TV ou nos balcões dos patrocinadores.
O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS), Luiz Roberto Lopez, acha que Mariano da Rocha "é uma personalidade municipal" e "não tem relevância histórica" para ocupar o lugar de destaque que ganhou. Lopez foi um dos quatro integrantes da comissão montada pela RBS-TV para escolher os nomes de 45 gaúchos notáveis que figurariam nas cédulas. Mariano da Rocha não apareceu no rol de selecionados. Tampouco estava na pré-seleção de 200 personalidades. Acabou sendo votado através das linhas pontilhadas que permitiam ao eleitor colocar qualquer nome da sua preferência. "Foi uma escolha desvirtuada pela paixão local", interpretou Lopez.
O fundador da UFSM recebeu 93.327 votos, quase 30 mil de vantagem sobre o segundo colocado. Bateu Veríssimo (65.298), Quintana (64.702) e Vargas (61.682), celebridades reconhecidas até fora do Brasil. Ficou na frente de gente nacionalmente famosa, caso do compositor Lupicínio Rodrigues, da cantora Elis Regina, do ex-presidente João Goulart, respectivamente 5º, 7º e 10º colocados. Isto sem falar naqueles votados mas excluídos da relação dos 20 primeiros.
Entre outros, estão nesta situação os ex-governadores Leonel Brizola e Borges de Medeiros; o líder revolucionário Luiz Carlos Prestes; escritores como Simões Lopes Neto, Dyonélio Machado, Josué Guimarães, Cyro Martins e Caio Fernando Abreu; o pintor Iberê Camargo; o escultor Vasco Prado; os atores Paulo José e Walmor Chagas; e os jogadores de futebol Dunga, Tesourinha e Everaldo. Ao todo, foram computados mais de 1,7 milhão de votos. A eleição prolongou-se por sete semanas.
Mesmo o chefe do Departamento de História da UFSM, Júlio Quevedo, reconheceu que seria "bastante complicado", desde o ponto de vista de um historiador, justificar a presença de Mariano da Rocha como o mais votado. Ele explicou o resultado como um esforço da universidade, da prefeitura local, das escolas e da comunidade para "valorizar a universidade pública e gratuita" como Mariano da Rocha queria. "Se o momento histórico fosse outro, talvez o nome dele nem aparecesse", admitiu.


