Cuiabá, 09 (AE) - As declarações da Polícia Federal, de que concluiu o inquérito sobre o assassinato do juiz de Cuiabá Leopoldino Marques do Amaral, causaram revolta e indignação nos familiares, parentes e amigos. As investigações apontam o taxista Marcos Peralta, tio da escrivã Beatriz árias, como o autor dos dois disparos contra o juiz. Segundo a PF, não haveria mandantes do crime. "Agora querem transfomar o meu pai em bandido", disse o filho do juiz, Leopoldo Amaral Gattais.
A PF reafirmou que o motivo do crime é "fútil" e que Leopoldino estava fugindo do País. Beatriz, presa desde o dia 17 de setembro, foi apontada como co-autora. "Isso é um absurdo; depois da sua morte querem difamar a morte do juiz", disse a ex-mulher de Leopoldino, Odete Amaral. "A gente está aguardando que tudo ocorra da forma deles (PF e Interpol) para depois se pronunciar."
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário confirmou hoje que requereu à Polícia Federal as cópias dos depoimentos dos envolvidos na morte do juiz. Como a CPI não conseguirá ouvir todo mundo até o próximo dia 30, prazo para a conclusão dos trabalhos, os senadores vão recolher todo o material disponível com a PF. "Tudo que diga respeito ao juiz nos interessa", disse o presidente da CPI, Ramez Tebet (PMDB/MS).
"É muito estranho esse motivo apontado como a causa da morte do juiz", questiona o presidente do Centro de Direitos Humanos de Mato Grosso, Teobaldo Witter. "A gente aguarda uma posição mais concreta para nos pronunciarmos."
Cinco deputados integrantes da CPI do Narcotráfico da Assembléia Legislativa de Mato Grosso estiveram hoje na sede da Polícia Federal cobrando informações sobre o andamento do inquérito que apura a morte do juiz e a sua ligação com o narcotráfico. Segundo a presidente da CPI, deputada Serys Slhessarenko (PT), a primeira meta da CPI é buscar informações com órgãos que representam o Poder Judiciário, como a PF, Ministério Público Federal e a Justiça Federal para saber se há alguma ligação entre a morte do juiz e o narcotráfico em Mato Grosso.
Nesta quinta-feira a CPI estadual reúne-se com o presidente da CPI da Câmara Federal, deputado Magno Malta (PTB-ES), para troca de novas informações. A CPI estadual vai auxiliar a Comissão Parlamentar de Inquérito atendendo ao pedido de Magno Malta, que estendeu a proposta de CPIs estaduais a outros estados brasileiros.
A Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso (OAB/MT) também se manifestou em relação ao andamento do inquérito que apura a morte do juiz. "Não é somente a OAB que quer a transparência do crime e das denúncias, e sim toda a sociedade que está cobrando", afirmou o presidente da OAB/MT, Ussiel Tavares.
Ele observou que está havendo uma inversão das partes envolvidas nas acusações de Leopoldino Amaral. "A Ordem não colaborou para a denegrir a imagem dos magistrados e da própria instituição ante a opinião pública", disse Ussiel. "Eles (desembarbargadores) foram acusados por um dos próprios membros, que era o juiz Leopoldino".
"Esse motivo do crime até parece brincadeira porque tudo agora nos leva a crer que o juiz que no início era herói agora se transformou em bandido", disse o empresário Douglas Padilha, amigo do juiz. Na sua opinião, um crime que aparentemente havia sido planejado, não pode ser fútil.
Nos depoimentos à PF, Beatriz árias, que trabalhava no Fórum Cível de Cuiabá, revelou detalhes do trajeto que levou ao assassinato do juiz, ocorrido na madrugada do dia 7 de setembro, quando ela confessou a co-autoria no crime. Informou também que Amaral vivia momentos de grande pressão em virtude das denúncias apresentadas contra desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
Beatriz contou que ela, o tio e o juiz deixaram Cuiabá na sexta-feira, dia 3 de setembro, e seguiram para a cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Eles chegaram na cidade por volta das 17 horas de sábado, dia 4. Lá, o juiz se hospedou num hotel, enquanto ela, com o veículo de Leopoldino, ao lado do tio, foram para a cidade de Vallemy, a 500 quilômetros, de Pedro Juan Caballero.
No domingo pela manhã, 5, segundo o relato, ela se encontrou com Félix Villalba, tio de seu marido Paulo Paniágua, de quem emprestou a arma utilizada no assassinato. Na mesma data, Beatriz e o tio retornaram para Pedro Juan. Eles chegaram na cidade já na segunda-feira, 6, por volta das 18 horas. A viagem foi longa em função das condições da estrada.
Os três se encontraram com Leopoldino e, no final da tarde, deixaram o hotel rumo a Concepción. No caminho, Leopoldino foi executado, segundo a escrevente, pelas mãos do tio, Marcos Peralta. O assassinato aconteceu por volta da 1 hora da madrugada do dia 7 de setembro. Em seguida, os dois atearam fogo no corpo do juiz.
O corpo de Leopoldino, semicarbonizado, foi encontrado cinco horas depois pelo estudante paraguaio César Dario Savala. Ele também encontrou os documentos do juiz e avisou a Polícia. A notícia chegou à Polícia Federal em Cuiabá por volta do meio dia.

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