São Paulo, 05 (AE) - Dentro de 60 dias os representantes dos concessionários de veículos de todo o País estarão entrando com processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra as montadoras. Até lá, esperam concluir uma auditoria que tentará indicar o tamanho da descapitalização da rede, provocada, segundo argumentam, pela redução das margens de lucro. De posse dos dados, pretendem acionar os fabricantes por abuso de poder econômico.
O processo que a Fenabrave pretende montar passa por uma série de queixas. A tentativa de levar o Cade a reconhecer o abuso de poder econômico diz respeito, segundo o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos (Fenabrave), Hugo Maia, ao fato de as montadoras venderem os veículos para os concessionários por preços que quase se igualam aos que o mercado paga. "Eu não posso falar para o consumidor: compra por este preço, senão eu te quebro a cara", disse o presidente da Fenabrave.
Segundo a Fenabrave, de janeiro de 1995 a outubro deste ano o preço do carro popular subiu 106% e o do veículo com motor 1.6, 96%. De janeiro de 1995 a setembro deste ano, o IGPM somou 56%. A Fenabrave utilizou ainda simulação com base em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) para constatar que o preço médio do automóvel zero-quilômetro hoje está 28% acima da capacidade de compra do mercado.
Existem hoje no Brasil cerca de 500 revendedores autorizados que já fecharam as portas ou já acionaram a montadora que representam para serem ressarcidos de danos por este mesmo abuso econômico. Recentemente um grupo no sul entrou com ação contra a Volkswagen. O mesmo aconteceu já nas redes Fiat e Ford.
Segundo Maia, a Fenabrave procurou a representação das montadoras - a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) - e deu prazo de 15 dias - já esgotado - para negociar novas formas de comércio de veículos. Como a Anfavea teria se recusado a discutir o assunto, o problema será encaminhado ao Cade. A Anfavea foi procurada, mas não comentou o assunto.
A lista de reclamações que será encaminhada ao Cade inclui ainda o custo dos estoques. Maia não especificou os problemas. Lembrou apenas que o concessionário precisa pagar as taxas de juros que as montadoras querem para utilizar o dinheiro dos fundos de capitalização, que servem para manter estoques. Segundo empresários do setor, mesmo que o revendedor disponha de capital de giro próprio, ele acaba ficando atrelado aos fundos porque as montadoras fazem o faturamento dos veículos com bônus utilizando estes sistemas.
Mico - Os concessionários também se queixam de ser indiretamente obrigados a retirar da montadora veículos que não são bem aceitos pelo mercado. Hugo Maia não confirma este problema. Mas, segundo revendedores ouvidos que não quiseram se identificar, o fabricante hoje "empurra o modelo" que quer usando este método como forma de definir quais concesssionários permanecerão neste mercado, de redes mais enxutas. Os que recusam acabam sendo boicotados em outros momentos.
A auditoria que a Fenabrave prepara está a cargo da Austin Asis. Esta empresa elaborará ainda um elenco de propostas para modificar a relação comercial com as montadoras. Entre as idéias, está o faturamento direto. Este modelo prevê o faturamento direto da fábrica para o consumidor, garantindo ao concessionário uma comissão fixa.
Mas esta idéia já vinha sendo discutida antes da mobilização da Fenabrave. Concessionários já começaram a discutir com as montadoras a fusão de grupos e a criação de um centro único de oficinas de diferentes concessionárias para reduzir custos.
As reivindicações da Fenabrave incluem ainda modificação da remuneração da mão-de-obra nos veículos em garantia (mais cara que nos demais) e possibilidade de o revendedor poder comprar peças de reposição no mercado. Hoje ele precisa retirar 90% das peças da própria montadora, o que resulta em aumento de preços, para o consumidor, de até 50% em alguns casos.

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