Concentração no setor de massas fez desaparaceer 50% dos fabricantes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de agosto de 1999
Por Sérgio Bueno 
Porto Alegre, 01 (AE) - O setor de massas alimentícias apresenta uma concentração "lenta e constante" no País, com a redução de 50% no número de fabricantes nos últimos dez anos. Durante este período, o total de indústrias recuou de 400 para cerca de 200, sendo que 15 delas dominam 65% da produção nacional de 1,1 milhão de toneladass em 1998. Somente o grupo argentino Macri conquistou uma fatia de 17% desde 1995.
Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima), Aladino Selmi Neto, este ano as empresas também enfrentam uma forte pressão nos custos devido à desvalorização do real, que já atinge cerca de 60% desde janeiro. O maior impacto foi sobre o trigo, que representa 45% dos custos da produção. Conforme Selmi Neto, 80% desta matéria-prima são importados pelas fábricas.
Concentração - A concentração do mercado decorre dos altos investimentos em modernização necessários para aumentar a escala de produção e a rentabilidade das empresas, já que as margens médias do setor são "baixas", disse o vice-presidente da Abima. De acordo com ele, o volume de investimentos previstos pelas indústrias nos anos 1999/2000 alcança R$ 120 milhões, contra R$ 60 milhões que haviam sido estimados para o período 1998/1999.
Selmi Neto ressalva que as grandes distâncias entre as praças de consumo do País inibem a atuação de empresas de alcance nacional. A sua própria empresa, a Selmi, de São Paulo, é a segunda maior do País, com 7,5% do mercado. Mesmo assim, ele reconhece que esta dificuldade pode ser superada pela formação de grupos.
Macri - Esta é a estratégia do Macri, que já investiu US$ 115 milhões no Brasil na aquisição de empresas de massas e biscoitos. A Basilar foi comprada em 1995, a Isabela em 1997, a Zabeti, em 1998 e a Adria este ano. Além dos 17% da produção de massas, o grupo já detêm 5% do mercado de biscoitos e o projeto é "crescer", disse o presidente da Canale do Brasil, que comanda as operações brasileiras no setor, Dacio Pozzi.
O executivo afirmou que o grupo mantém o interesse na aquisição de novas empresas nos dois segmentos, que respondem por US$ 200 milhões dos US$ 500 milhões faturados por ano no País, incluindo operações em infra-estrutura como energia elétrica e estradas. Dentro de três anos, a meta do conglomerado é chegar a uma receita anual total de US$ 1 bilhão no Brasil, disse Pozzi.
Os planos de expansão incluem o setor de carnes, no qual o Macri ingressou por intermédio da aquisição do frigorífico Chapecó. "Isso implica comprar outras empresas para enfrentar os outros players no Brasil", adiantou. Pozzi não deu maiores detalhes sobre a estratégia no segmento, já que ele está sob o comando do executivo Alex Fontana.
Vendas - A Abima espera um crescimento de 7% no volume de venda de massas alimentícias este ano sobre 1998, alcançando quase 1,2 milhão de toneladas, para minimizar o impacto da desvalorização do real. Por causa disso a entidade está promovendo apresentações do produto e de suas qualidades nutricionais para "formadores de opinião" em diversos Estados.
O desempenho esperado para as vendas proporcionaria um faturamento total de pelo menos R$ 1,75 bilhão, contra R$ 1,5 bilhão no ano passado, disse o vice-presidente da Abima, Aladino Selmi Neto. A expansão maior nas receitas, segundo ele, seria possível porque no início de 1999 o setor já conseguiu repassar 18% de reajuste aos preços ao consumidor por conta da mudança cambial.
Além do impacto direto sobre o preço do trigo importado, que representa 45% dos custos de produção, a desvalorização do real também provocou um aumento de 30% nos gastos com embalagens
que compõem outros 12 a 15% das despesas das indústrias, disse Selmi Neto. De acordo com ele, os fretes também aumentaram entre 20 e 30% devido aos reajustes dos combustíveis.
Trigo - Na opinião do empresário, a principal matéria-prima da indústria de massas não tem perspectiva de se afastar do risco cambial no curto prazo. De acordo com ele, somente num prazo mínimo de cinco anos, "se o Brasil trabalhar bem", haverá sementes de boa qualidade do produto disponíveis para plantio no País. "Hoje existem algumas sementes varietais em desenvolvimento mas o processo pode levar dez anos", comentou.
Segundo o empresário, faltam verbas para o desenvolvimento de boas sementes a até 1990, quando vigorava o controle estatal sobre a compra, estocagem e venda do trigo brasileiro, as pesquisas da Embrapa eram direcionadas para o aumento da produtividade e não da qualidade. Com a abertura do mercado, as indústrias buscaram fornecedores no exterior e a produção nacional caiu. Em 1986 o Brasil chegou a produzir 6 milhões de toneladas, atingindo a auto-suficiência. No ano passado ela ficou em 2,3 milhões de toneladas.


