Conab apela à indústria leiteira
Mariângela Herédia
Agência Estado
O governo não vai poder incluir o leite na cesta básica distribuída aos flagelados da seca do Nordeste porque a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não conseguiu comprar o produto no mercado. Nos dois primeiros leilões feitos pela empresa, ninguém quis vender o leite pelo preço oferecido, de R$ 3,50 o quilo, no máximo. A Conab suspendeu o leilão da última sexta-feira e tentará fazer uma nova compra esta semana.
O presidente da Conab, Eugênio Stefanello, alerta ao mercado que não é momento para pressão de preços, e pede que o setor leiteiro participe dos leilões sem qualquer movimento especulativo, para não inviabilizar as compras. ‘‘O governo não vai bancar isso porque não é sua função atender especulações’’, garante. Para Stefanello, se o impasse continuar, a Conab poderá cancelar os leilões.
Para incluir um quilo de leite na cesta básica de 1,4 milhões de famílias cadastradas no programa emergencial contra a seca, a Conab precisará comprar 2,5 mil toneladas de leite em pó por mês no mercado, o que equivale a 21,2 milhões de litros de leite ‘‘in natura’’ por mês, durante os sete meses de duração do programa. Apenas as empresas nacionais podem participar da licitação para a venda do leite.
O deputado Abelardo Lupion (PFL-PR), coordenador da bancada ruralista no Congresso, pediu ao Ministério da Agricultura para a Conab fixar preços compatíveis nos leilões. ‘‘Não podemos desmoralizar um programa que beneficia os produtores nacionais de leite’’, afirmou.
Os preços estabelecidos pela Conab foram considerados baixos não apenas no mercado, mas até por técnicos do próprio governo especializados no setor. Os técnicos explicam que, para fazer um quilo de leite em pó são necessários 8,5 litros de leite, em média e, como o produtor está recebendo cerca de R$ 0,30 por litro, só aí o custo já atingiria R$ 2,40. ‘‘Além disso, a Conab exige uma embalagem especial com a marca Comunidade Solidária e o transporte do produto até os locais de distribuição, o que implica gastos com frete’’, disse um dos técnicos.
A coordenadora da área operacional da Bolsa de Mercadorias de Brasília, Luanda Assunção, acredita que se a Conab não reformular os cálculos para a fixação dos preços, não conseguirá comprar leite nos leilões.
No Ministério da Agricultura, a preocupação é de que o leite acabe sendo retirado do Programa de Distribuição Emergencial de Alimentos (Prodea), antes mesmo de ser incluído de fato. Os técnicos observam que a inclusão do leite no Prodea é uma reivindicação antiga para elevar o valor protéico da cesta básica.

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