Moscou, 15 (AE-AP) - A tentativa do Partido Comunista e de seus aliados de iniciar um processo de impeachment na Duma (câmara baixa do parlamento russo) contra o presidente Boris Yeltsin fracassou neste sábado (15).
Nenhuma das acusações apresentadas contra ele obteve o número de votos necessários para desencadear o ritual legislativo da destituição do presidente, que, durante a votação, submeteu-se a uma bateria de exames médicos num hospital militar da capital russa.
O malogro da iniciativa do PC está sendo atribuído pelos analistas políticos locais ao resultado de uma opção dos legisladores russos que, na última hora, decidiram não enfrentar Yeltsin, que domina o cenário político russo desde a derrocada da antiga União Soviética.
Depois de três dias de acalorados debates, entremeados de ameaças e ofensas entre os partidários e opositores, nenhuma das cinco acusações contra o mandatário russo - destruição da União Soviética, dissolução ilegal do Parlamento em 1993, "genocídio" da população ao adotar uma política desastrosa, que destruiu a economia e o sistema social, deflagrar a desasatrosa guerra contra a Chechênia e debilitar as forças armadas devido aos cortes de efetivos e financiamento - prosperou.
O resultado mais próximo do mínimo exigido para desencadear o processo de impeachment foi o referente à responsabilidade do presidente na Guerra da Chechênia. Votaram pela incriminação dele 283 deputados - 17 a menos do total de 300 exigidos pela Constituição russa para iniciar os debates sobre a destituição.
Os comunistas e seus aliados de linha dura estavam certos da vitória depois de mais de um ano de negociações e consultas para processar Yeltsin. Contudo, os parlamentares de tendência centrista e nacionalista decidiram apoiar o presidente em consequência de divergências e antagonismos irreconciliáveis com os comunistas.
Os resultados foram lidos em voz alta diante dos parlamentares
depois de um dia de debates sobre os procedimentos sobre as votações. Apenas 348 deputados compareceram ao plenário. Dezenas não participaram da sessão ou boicotaram. "A gravíssima crise política que poderia precipitar-se sobre a nação acabou sendo evitada", reagiu aliviado o primeiro-ministro designado Sergei Stepashin. "Prevaleceu a razão."
A votação foi uma clara vitória de Yeltsin, mas não representa o fim de suas dificuldades nem dos graves problemas econômicos e sociais enfrentados pelo país. Yeltsin está diante de uma nova e difícil batalha com a Duma, já na semana que se inicia.
Ele terá de fazer novas concessões aos comunistas para obter a aprovação do nome de Stepashin. Os comunistas ficaram profundamente indignados com a decisão do presidente de destituir, esta semana, Yevgeny Primakov da chefia do governo.
O ex-primeiro-ministro havia-se cercado de esquerdistas em seu gabinete e praticamente congelara as reformas de mercado e as privatizações de empresas estatais. Ganhara, por isso, o apoio de muitos membros proeminentes da bancada comunista na Duma. A derrota sofrida por eles no processo de impeachment poderá levá-los a um endurecimento do processo de votação do substituto de Primakov.
Pela Constituição russa, Yeltsin poderá dissolver a Duma se esta recusar por três vezes a indicação do primeiro-ministro por ele apresentada e convocar eleições gerais.
Durante o debate em torno do processo de destituição, o líder comunista Gennady Zyuganov acusou Yeltsin de "arruinar milênios da civilização russa" e advertiu os parlamentares de que a votação contra o imepeachment exporia a Rússia a agressões da China e da Otan.

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