Arapoti - O Paraná tem 37 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares, mas de acordo com pesquisas realizadas na primeira metade da década de 2000, pelo Grupo de Trabalho Clóvis Moura, há mais de 80 e ainda é possível que haja mais comunidades não mapeadas.

Em 2003, um decreto federal definiu que são considerados remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.


Imagem ilustrativa da imagem Comunidades quilombolas têm perfis distintos



Segundo a professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Liliana Porto, doutora em antropologia, nem todo grupo tem uma história direta com a escravidão. "É claro que a presença negra no Brasil tem relação com a escravidão, mas isso não quer dizer que o grupo individual tenha tido uma história de escravidão. Esses processos são muito mais complexos", comenta.

Ela ressalta que as comunidades quilombolas do Paraná têm perfis distintos. Há descendentes de africanos livres que viveram em aldeamentos indígenas. "Os africanos livres eram pessoas que chegavam ao Brasil após a proibição do tráfico. Eles ficaram submetidos ao Estado por 14 anos, que os mandavam para aldeamentos indígenas", explica a professora. No Paraná havia duas comunidades em Curiúva (Norte Pioneiro).

A região de Castro (Campos Gerais), por sua vez, tem uma característica diferenciada. "Por exemplo, a Fazenda Capão Alto era controlada por padres carmelitas e quando esses religiosos saem da fazenda, deixam os escravos se autoadministrando. Após algumas décadas, o local e os escravos são vendidos. Muitos deles fugiram. Várias comunidades quilombolas são originárias dessas famílias de escravos", aponta Liliana.

Já em Curiúva, a ligação é com o aldeamento de São Jerônimo e traz elementos da religiosidade católica, que era muito forte nos aldeamentos. No Vale da Ribeira, o que define o perfil é a característica geográfica da região.

Comparado com outras regiões do Brasil, as comunidades quilombolas são pouco representativas. A professora cita que na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, havia 23 comunidades em um município. "As regiões do Norte e Nordeste do País também têm mais expressão."

Comunidades quilombolas têm perfis distintos
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Segundo a pesquisa de Leonardo Marques, que originou o livro "Entre dívidas e migração: o pós-abolição no Paraná", a presença negra no Estado era significativa. "A presença dessas comunidades é muito importante, porque quebra o discurso de que o Paraná é um Estado branco. Em 1872, em Castro e Tibagi mais de 60% da sua população era negra", ressalta a professora.

Liliana afirma que é importante esses grupos se organizarem como forma de conhecer a sua cultura e sua diversidade. "Não podem achar que os grupos vão se congelar no tempo. Os grupos têm o direito de escolher os próprios caminhos históricos." Ela ainda critica a ausência de políticas públicas sobre o assunto. "Tivemos um período em que houve pesquisas e políticas públicas. Hoje, temos só estudos acadêmicos, infelizmente os processos de regularização fundiária estão em ritmo lento. As políticas públicas retrocederam", afirma.(A.M.P.)

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