São Paulo, 20 (AE) - Há cerca de um mês, os restos de comida descartados na casa de Kelly Lubiato, no bairro Sausalito
na Serra da Cantareira, zona norte de São Paulo, têm um destino diferente. Em vez de ir para o cesto de lixo, são empilhados numa minicomposteira no quintal, para virar adubo. A iniciativa foi motivada pelo programa de redução de resíduos e coleta seletiva adotado por seu bairro, que vai arcar com os custos de assessoria técnica e instalação.
No vácuo do desinteresse do poder público, condomínios e associações de bairro como a do Sausalito resolveram fazer sua parte para preservar o ambiente. Estão investindo esforços e dinheiro na coleta seletiva.
Preocupação - "A sociedade civil tem de tomar a iniciativa, mesmo que com ações pequenas", defende Kelly. Ela separa latas de alumínio e começou a evitar a compra de produtos com embalagens que não têm mercado para reciclagem no País, como as de isopor. "Dá mais trabalho, mas é um resíduo a menos que vou consumir."
A preocupação dela não é isolada na Cantareira, área de manancial responsável por 60% do abastecimento de água da cidade. Sensibilizado com o problema, o empresário Marcelo Bacchini cedeu um galpão ocioso de sua empresa para o armazenamento de recicláveis coletados por quatro associações. Desde março, o material é pesado e vendido para sucateiros.
"Em agosto, mais quatro bairros vão participar", explica. "O poder público perde tempo e nós estamos preocupados com o meio ambiente." Bacchini lembra que o lixão da região está saturado e pode contaminar o lençol freático.
Independência - A educadora ambiental Araci Musolino Montineri, do programa Jogo Limpo, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, criado há um ano e meio, identifica uma demanda crescente da sociedade civil. Quase metade da busca por assessoria do programa, que orienta a adoção da coleta seletiva, tem partido de condomínios, associações de bairro e escolas. Para Araci, a escolha é trabalhosa e não dá lucro. "Nas mãos da comunidade, a independência de políticas públicas está garantida e há maior chance de continuidade."
Lucro ambiental - Em pequena escala, a coleta não só não dá lucro como exige dinheiro. "Só temos despesas, mas consideramos um investimento no ambiente", afirma Daniel Silveira, da Sociedade Amigos da Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral norte, onde até pilhas usadas são reaproveitadas na construção de calçadas.
"Coleta e reciclagem são só a ponta: queremos reduzir a produção de lixo", ressalta Silveira. O programa, que conta com a ajuda da empreendedora Sobloco, existe desde 1993 e só não é ampliado por limitações econômicas.
Para atenuar os custos, os moradores do Santa Catarina, condomínio de classe média de São Bernardo, no ABC, fizeram parceria com uma entidade filantrópica que retira diariamente os recicláveis separados. "Sem isso não teríamos como dar destino ao lixo sem gastar dinheiro", explica a moradora Maria Aparecida de Souza.
A comunidade antecipou-se ao programa que a administração municipal deve adotar em breve e iniciou a coleta no fim do ano passado. "Cobramos da prefeitura a instalação dos PEVs (postos de entrega voluntária)", conta Maria. "Os moradores estão participando e até pedem a ampliação da coleta."
A experiência do Condomínio Trafalgar, no Morumbi, zona sul da capital, é outra referência positiva. "As pessoas precisam saber que dá para fazer a coleta na comunidade", afirma a microempresária Ely Belotto, "apaixonada" pelo projeto que ajudou a instalar há seis meses. O lixo armazenado nos depósitos do prédio foi reduzido a menos da metade. "É uma oportunidade de integrar e qualificar as pessoas."

mockup