Pristina, 30 (AE-AP) - Quando o governo iugoslavo levou refugiados sérvios vítimas da luta na Croácia para uma escola de Kosovo, pouca atenção foi dada às crianças albanesas que estudavam ali. Assim, quando o conflito de Kosovo fez com que os refugiados sérvios mais uma fez saíssem da escola, albaneses étnicos aplaudiram e gritaram "Voltem para a Sérvia!"
Os sérvios, muitos deles idosos e alquebrados por anos vivendo sem casa, se vêem como vítimas de forças poderosas, implacáveis. "Estamos abandonados", disse Dorde Barac. "Não sei onde serei enterrado."
O filho de 33 anos de Barac, Duro, desapareceu domingo. Ele foi visto pela última vez saindo da escola onde residia para comprar um veículo a fim de mudar de Kosovo. Barac está convencido de que seu filho foi sequestrado e morto apenas por ser sérvio. Tais assassinatos ocorrem desde que albaneses étnicos sedentos de vingança retornaram de campos de refugiados no fim da guerra de Kosovo.
Um dia depois que seu único filho desapareceu, Barac, um viúvo
mudou-se da escola para o Bozur, um antes grande e agora arruinado hotel no centro da cidade que transformou-se num campo de refugiados.
Cerca de 200 sérvios da Croácia, de bebês a idosos, só se sentem seguros juntos e raramente deixam o hotel. Eles dizem que são ameaçados por albaneses étnicos nas ruas de Pristina, a capital de Kosovo. "Eu nunca quis vir para cá. Agora terei de ir para algum outro lugar. A situação é a seguinte: Fiquei sem meu filho, sou um velho, e não tenho para onde ir", explicou Barac.
No reduzido saguão do Bozur, repleto de caixas de alimentos doados e sacos de farinha distribuídos por agências humanitárias
Dragan Ilic afirmou: "Estamos apenas pedindo que alguém nos leve até a fronteira (sérvia) porque tememos por nossas vidas aqui."
Estimados 71.000 sérvios fugiram de Kosovo temendo represálias de albaneses étnicos expulsos da província por uma brutal campanha de limpeza étnica orquestrada pelo presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Agora são os albaneses que estão sendo acusados de promover saques, incêndios e assassinatos que estão minando o acordo de paz.
"A tendência de deslocamentos nesta parte do mundo não parece que vai parar", disse Paula Ghedini, uma porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) baseada em Pristina. "Temos visto a recorrência do retorno de um grupo provocando o deslocamento de outro. É uma triste mostra de como as coisas são instáveis."
Apesar de serem da mesma etnia e compartilharem a religião ortodoxa com os sérvios de Kosovo, os sérvios da Croácia são estranhos à longa e amarga disputa em Kosovo, uma província da Sérvia, a república dominante da Iugoslávia. Os sérvios croatas chegaram como refugiados em meados da década de 90, depois que tropas da Croácia esmagaram uma revolta sérvia e tomaram a região de Krajina.
Krajina transformara-se num enclave sérvio desde 1991, quando os sérvios se revoltaram contra a declaração de independência da Croácia em relação à Iugoslávia. Cerca de 200.000 sérvios da Croácia foram expulsos de Krajina, e 14.000 dos mais pobres e desesperados acabaram relutantemente em Kosovo, segundo a Acnur.
Enquanto crescia a tensão entre albaneses e sérvios de Kosovo, os sérvios de Krajina mais uma vez fugiram, ou para o exterior ou para áreas sérvias ao redor de Kosovo. Ghedini disse que apenas poucos milhares de refugiados de Krajina permanecem em Kosovo, e eles ficaram só porque não têm recursos para partir. A agência está tentando determinar para onde enviá-los.
"Ninguém protege gente como nós", afirmou Milan Kajgana, 69 anos, que veio da escola para o Bozur na semana passada com sua irmã. Ele disse que homens armados com facas foram duas vezes à escola e ameaçaram matá-lo e a outros sérvios caso eles não partissem. Na segunda vez, ele decidiu que seria mais seguro ir para o hotel.
Hoje, do lado de fora da escola, o ex-zelador Muhabi Pajaziti disse que estava tomando conta do edifício desde que ele, alunos e professores foram expulsos para abrir caminho para os refugiados de Krajina. Ele falou que agora que os refugiados partiram, a escola seria reaberta em poucos dias.
Os albaneses étnicos estudavam nos porões e em salas de casas divididas depois que a escola na qual estudavam virou campo de refugiados. Pajaziti compartilhou pouca simpatia em relação aos sérvios, que deixaram a frase "Isto É Sérvia" pintada na parede da escola.
"Os sérvios são vítimas de Milosevic", afirmou Pajaziti. "Eles não são nossa responsabilidade. Eles são responsabilidade dele. Eles o apóiam. Agora eles têm de lidar com as consequências."

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