Comportamento considerado normal gera doenças mentais
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de novembro de 2000
Érika Pelegrino De Londrina 
A casa do vizinho está sendo assaltada, mas o morador ao lado não aciona a polícia pois teme a reação do ladrão. A mãe chama os filhos e diz que só suportou seu casamento por causa deles. A criança vai à cozinha escura para pegar um copo dágua e um adulto grita da sala: Cuidado com o bicho-papão. Grupos de adolescentes depedram orelhões, picham muros, fazem barulho de madrugada. Pais andam semidespidos ou nus dentro de casa na frente de seus filhos na fase de latência (idade entre seis e 11 anos); fazem promessas que não cumprem.
Aparentemente estas situações podem ser classificadas apenas como não muito apropriadas, e muitas vezes até mesmo como normais. Mas estudos e pesquisas na área de saúde mental têm mostrado que estes comportamentos são adulterações do aparelho psíquico do ser humano. Estas adulterações têm gerado patologias que são classificadas na psiquiatria como psicopatologias do contato.
O psicólogo e terapeuta familiar de Campinas (SP) Ivan Roberto Capelatto
esteve em Londrina ministrando um curso sobre o tema, a convite da organização não-governamental (ONG) Pais Em Paz.
O assustador é que estas patologias estão incorporadas à sociedade como se não fossem doenças. Suas manifestações podem ser vistas dentro das casas de famílias normais e até mesmo dentro das escolas. Segundo Capelatto, são as formas mais graves de patologia humana e são legitimadas pela sociedade. Isto porque quem faz as leis é aquele que está no poder e quem é atraído pelo poder é o narciso, o desidentificado, aquele que não suporta a diferença e por isto promove a exclusão.
A descoberta de que comportamentos considerados normais por uma sociedade são doenças graves, de acordo com Capelatto, levou ao estudo da formação do pensamento psicopata. Segundo ele, a solução depende de uma mudança na linguagem dos cuidados com a criança e o adolescentes, da compreensão de que existe uma regra para o funcionamento do psiquismo do ser humano que precisam ser respeitadas para garantir a saúde mental.
O ser o humano é o único ser que adoece mentalmente e que, dependendo da linguagem que assume perante a vida, também adoece os que estão ao se redor, consequentemente os filhos são as primeiras vítimas de respeitáveis pais psicopatas. Estes pais, segundo o psicólogo, adoecem seus filhos com atitudes como: andar nu dentro de casa, fazer promessas que nunca são cumpridas, tratar os filhos com indiferença e não com base na afetividade, usar o dinheiro como forma de manipulação . Não é a sociedade que adoece o indivíduo, mas a família, afirma o psicólogo.
A situação chegou a tal ponto que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 95% da população sofre de alguma psicopatologia do contato: consentimento, desidentificação, dinheiro, inveja, sedução e sedição.


