Competição começa a esquentar em Cannes Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, 17 (AE) - A competição começa a ficar mais animada no 52º Festival International du Film. No domingo, foram exibidos o filme de Chen Kaige, O Imperador e o Assassino, e o de Arturo Ripstein, Ninguém Escreve ao Coronel. Hoje foi o de Atom Egoyan, Felicias Journey.
O chinês Kaige já ganhou a Palma de Ouro por Adeus, Minha Concubina. Está de volta em Cannes com um épico inspirado na figura do primeiro imperador da China. Kaige quis fazer o seu Shakespeare e o seu Kurosawa. O filme tem ecos de Kagemusha, a Sombra do Samurai e, especialmente, Ran. O imperador fala em unificar todos os reinos da China para promover a paz. Na verdade, promove um banho de sangue que horroriza a personagem de Gong Li. Ela está linda como sempre, as cenas de batalhas são impressionantes, mas trata-se tanto de um sub-Kurosawa quanto de um sub-Shakespeare.
Há anos o mexicano Ripstein queria adaptar o romance de Gabriel García Márquez. Quando tentou adquiriu os direitos, nos anos 60, o escritor disse-lhe que ele deveria aprender o ofício, antes de pensar no filme. Há dois anos, García Márquez telefonou para Ripstein e disse que os direitos eram dele. "Devo ter aprendido direitinho as minhas lições de direção", diz o cineasta rindo. Ripstein é o grande nome do cinema mexicano atual.
Pedro Almodóvar diz que Ripstein é um de seus mestres. Considera o fato de ambos estarem concorrendo à Palma de Ouro (Almodóvar com Tudo sobre Minha Mãe) "uma coisa da vida". "Não me importaria que ele ficasse com o prêmio do júri ou o de direção, desde que eu ganhasse a Palma", diz o diretor espanhol.
Ninguém Escreve ao Coronel teve aplausos discretos no fim da sessão. Pode-se compreender o que atraiu Tipstein no romance: os temas da solidão, da velhice, da dignidade na miséria, a morte. Mas não se trata do grande filme que se poderia e até deveria esperar de um cineasta como Ripstein, que os franceses (a revista Cahiers du Cinéma à frente) têm na conta de gênio.
Ripstein pode ser um veterano em Cannes, mas não chega a ser tão cultuado quanto o canadense Atom Egoyan, que ganhou duas vezes o prêmio da crítica (por Exótica e O Doce Amanhã), acumulando, com o último, o prêmio do júri. Egoyan é um dos autores mais interessantes e originais da atualidade. Seu filme trata de um serial killer, mas está longe de seguir o figurino tradicional das produções do gênero, em que o espectador acompanha os crimes em série e os esforços da polícia para chegar ao assassino.
Essa é a via tradicional, que rendeu alguns bons e até grandes filmes, casos de O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, e Seven, os Sete Crimes Capitais, de David Fincher. Com Egoyan, não existe a "serialização". O filme trata da relação entre o criminoso, interpretado por Bob Hoskins e que se toma por um homem normal, e uma garota que procura o rapaz que a engravidou. É um filme todo construído em cima de ambiguidades e sobre o não-dito, mas que fica subentendido. Por mais fascinante que seja, criando verdadeiro mal- estar no espectador, a impressão é que se trata de um filme menor, principalmente comparado a O Doce Amanhã. Mesmo assim, Felicias Journey recebeu aplausos entusiasmados no fim da sessão e já existem críticos e jornalistas que dizem que Egoyan veio para acabar com o favoritismo (por enquanto) de Almodóvar.





