Curitiba - O presidente da Companhia Paranaense de Gás (Compagas), Luiz Carlos Meinert, disse ontem que o fornecimento de gás natural para os clientes do Paraná não será interrompido nem alterado, segundo garantiu ontem o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. ‘‘Isso nos dá a tranqüilidade que estamos procurando transmitir para os nossos clientes’’, afirmou.
  Segundo ele, o consumidor paranaense não tem nenhum motivo para se preocupar com falta de gás porque isso não vai ocorrer. Meinert disse ainda que é muito cedo para especular sobre questões como possíveis prejuízos para os empresários do Paraná. Ele acredita na capacidade de negociação do governo brasileiro e da Petrobras. ‘‘O próprio decreto do Morales (Evo Morales, presidente da Bolívia), fixa um prazo de 180 dias para que a negociação aconteça’’, destacou. ‘‘Acho que o momento para a Compagas e os clientes é de cautela e de aguardar o desenrolar dos acontecimentos’’, afirmou.
  Quanto ao preço do gás natural, ele disse que a única certeza, por enquanto é que os preços não baixarão. ‘‘O resto é especulação’’, afirmou. Hoje, os Estados do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso são abastecidos com gás natural 100% da Bolívia.
  A Compagas tem 90 clientes industriais e, em um possível racionamento, os setores mais prejudicados seriam de co-geração de energia, madeira, cerâmica de Campo Largo e de alimentação. As indústrias consomem hoje 90% da produção diária de 750 mil m3 da Compagas.
  Meinert destacou ainda que a continuidade do fornecimento está assegurada nos próximos 180 dias. Apesar de o contrato de compra de gás entre a Petrobras e a Bolívia ir até 2019, não é possível prever por quanto tempo o abastecimento estará garantido.
  A Bolívia vende 30 milhões de m3/dia de gás para o Brasil. Meinert disse que até 2009 a dependência que o Brasil tem de gás natural (hoje 51% do gás vem da Bolívia) vai cair para 30% com a produção da Bacia de Santos e de Manati, no Nordeste. Segundo o presidente, por enquanto, nada muda nos investimentos da Compagas. Se for necessário, o racionamento será feito com a redução do consumo das usinas termelétricas e refinarias de 27 milhões de m3/dia para 18 milhões de m3 de gás.
  O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Rodrigo da Rocha Loures, acredita que faltou ‘‘competência do Brasil e da Petrobras como negociadores internacionais e o resultado foi desastroso’’. Ele disse que, de momento, as indústrias não devem reduzir investimentos, produção e demitir. Segundo ele, esta situação cria ‘‘incerteza quanto a quantidade do abastecimento, quanto ao preço e a regularidade do fornecimento’’.
  No Paraná sete cidades são abastecidas com o gás: Curitiba, Araucária, Campo Largo, Balsa Nova, São José dos Pinhais, Palmeira e Ponta Grossa. A Compagas possui 430 km de rede.
  Segundo informações do Departamento de Energia da Fiep, o impacto no setor industrial vai ser variável conforme o nível de dependência das empresas e a capacidade de substituir por um sistema de energia alternativo. Algumas indústrias podem ter danos em equipamentos térmicos e nos processos que envolvem altas temperaturas. O presidente do Sindicato das Indústrias de Louça de Campo Largo, José Canisso, foi procurado pela reportagem mas não deu retorno até o fechamento desta edição. A Porcelana Schmidt já se prepara com combustível
alternativo.

  Histórico - Toda esta discussão começou com o anúncio do presidente da Bolívia, Evo Morales, de nacionalizar as usinas de extração de gás e poços de petróleo daquele país.
  Morales afirmou que as empresas que quiserem continuar a extrair o gás da Bolívia deverão se sujeitar às novas regras bolivianas, como o aumento do preço do combustível e a criação de um imposto de 32% destinado à estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos
(YPFB).
  O anúncio de Morales veio com um prazo de 180 dias para que as empresas exploradoras do combustível boliviano renegociem os contratos atuais ou deixem de explorar o gás da Bolívia. São mais de 20 empresas multinacionais que operam na Bolívia e que seriam obrigadas a repartirem os lucros com o país.

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