São Paulo, 22 (AE) - O ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) deu o tom de sua gestão (1993-96) ao convidar o engenheiro Reynaldo de Barros para assumir a Secretaria de Vias Públicas. "Vou endividar a Prefeitura para fazer as obras", prometeu Reynaldo, referindo-se a um pacote orçado na época em US$ 50 bilhões.
Para bancar o ímpeto de Reynaldo, Maluf e seu secretário de Finanças, Celso Pitta, recorreram ao mercado financeiro. A dívida da Prefeitura com a emissão de títulos cresceu ao ritmo de US$ 1 milhão por dia ao longo de 1993.
Em outubro daquele ano, a administração devia US$ 1,82 bilhão, 22% a mais do que na gestão anterior, de Luíza Erundina. Só a dívida em títulos crescera 54%. Em compensação, o Município teve à disposição para investir inéditos R$ 800 milhões.
Pitta não via motivo para preocupação. Alegava, primeiro, que a dívida herdada de Erundina era um pouco maior, de US$ 2, 3 bilhões. Também dizia que a maior parte dos recursos captados no mercado financeiro seria honrada ainda na gestão Maluf. "O que importa é o resto a pagar que deixaremos, não quanto contratamos", garantia.
O "resto a pagar" chegou a R$ 5,1 bilhões em fevereiro de 1997, no início da nova gestão - bomba-relógio que, ironicamente
caiu no colo do próprio Pitta. Com a explosão da dívida mobiliária, a Prefeitura fechou 1996 com um débito total de US$ 8,1 bilhões.
Como Pitta, seu sucessor na secretaria, José Antônio de Freitas, atribuiu o aumento da dívida à política de juros altos do governo federal. Um argumento que não podia ser desprezado, mas não explicava sozinho a penúria do Município.
Eleições - Fiel à promessa de Reynaldo, Maluf deu prioridade total aos projetos viários no último ano da administração. No primeiro semestre de 1996, por exemplo, investiu mais de 40% do orçamento em obras como os Túneis Ayrton Senna e Jânio Quadros.
"Tinha duas opções", admitiu Maluf, após as eleições vencidas por seu ex-afilhado. "Ou fazia as coisas pela metade, a Erundina estava eleita e ficava tudo parado de novo, ou eu terminaria."
Pitta assumiu com uma dívida de curto prazo de R$ 1,2 bilhão - R$ 990 milhões só com empreiteiras. O prefeito pisou no freio, cortou até o custeio de serviços básicos, mas, no limite, só conseguiu rolar débitos, o que fez o nível de endividamento continuar crescendo.
O escândalo dos precatórios fechou a válvula de escape da emissão de títulos. Restou a saída política da negociação com a União, posta em risco agora pelas denúncias de Nicéa Pitta.

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