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DENGUE -

Como o Aedes se tornou um novo 'bicho de estimação'

Especialistas comentam o avanço da dengue e os desafios diante da falta de conscientização da população, das adaptações adotadas pelo próprio mosquito e dos invernos com temperaturas mais elevadas

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

Fêmea do Aedes não precisa do sangue para viver, mas o utiliza para fazer em média 100 ovos
Fêmea do Aedes não precisa do sangue para viver, mas o utiliza para fazer em média 100 ovos | Igor Bondarenko/iStock
 


O Paraná já registrou quase 250 mil casos de dengue desde agosto de 2010. Os dados disponíveis em boletins divulgados pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) revelam números alarmantes e um cenário de epidemia que volta e meia assola o Estado e o País. Em contrapartida, o Aedes aegypti, mosquito transmissor da doença, aos poucos encontrou aconchego em boa parte dos lares já adaptados ao novo bicho de estimação. A maioria dos focos, cerca de 80% conforme a secretaria estadual, está nas residências em vasos de plantas, em vasilhas com água e ração para os animais e em garrafas plásticas deixadas nos quintais e que acumulam água.


A crescente receptividade ao mosquito e a conformidade diante de campanhas preventivas desafiam as formas de controle do vetor em todo o país. De acordo com o Ministério da Saúde, só no ano passado, foram confirmados pouco mais de 20 mil casos de dengue. Nesse mesmo período ocorreram 782 mortes pela doença no Brasil.


“É uma questão de múltiplos fatores. É uma questão de cidadania, tanto de cada um quanto do poder público, é uma questão de comunicação e de educação. O problema não é o Aedes”, avalia a bióloga Denise Valle, pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).


O mosquito, originário do Egito, chegou a ser erradicado no Brasil em 1955 após medidas para a contenção da febre amarela. Na década de 1980, o vetor foi identificado novamente no país já como transmissor da dengue. Posteriormente, zika e chikungunya reforçaram o potencial nocivo do mosquito.


Além das ações de conscientização, a pesquisadora aponta que a oferta de saneamento básico adequado e coleta de lixo com destinação correta de resíduos estão entre as medidas essenciais para evitar a doença. No entanto, o combate aos focos, segundo ela, esbarra também nos limites entre esfera pública e privada.


“Acho que é importante cobrar do poder público, mas você também mexe em uma seara muito delicada entre o que é público e o que é privado. ‘Vão entrar na minha casa? Como assim?’. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, a Secretaria de Saúde foi fazer um levantamento das ligações do ‘Disque dengue’ após um período de epidemia. Foram 5 mil ligações. Metade dessas ligações era de morador reclamando que o agente de saúde não tinha ido lá limpar o quintal da casa dele.”


“É uma questão que extrapola a saúde. O desafio do Aedes é justamente esse de tornar notícia uma coisa que já se tornou corriqueira na vida das pessoas. O que eu vejo é que a mobilização acontece quando há algo diferente, como a questão da zika que provocou comoção internacional por conta da associação com a síndrome nas crianças. Isso fez com que as pessoas realmente saíssem da sua zona de conforto e tomassem medidas efetivas dentro das suas casas”, completa Valle.


O doutor em clima e planejamento urbano Francisco Mendonça, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFPR (Universidade Federal do Paraná), é um dos coordenadores do Sistema de Alerta para o Controle de Epidemia de Dengue no Paraná. O sistema está ativo desde 2010 e as informações são repassadas ao Estado e aos municípios.


Para Mendonça, é preciso associar campanhas mais incisivas de combate à doença no Brasil a políticas efetivas e permanentes de ação para o controle do mosquito. “Nossas políticas, infelizmente, não têm continuidade. Muda prefeito, muda a política. Muda o governador, muda a política. Você tem períodos que apresentam característica epidêmica e aí há uma ação interna para esconder dados para não agravar a condição de um candidato. Temos uma realidade muito complexa. O dinamismo da nossa agenda política eleitoral ou representativa impacta diretamente na quantidade de recursos. Há ainda a corrupção que altera a finalidade desses recursos. A dengue não deve ser tratada só no momento da epidemia e, sem essa continuidade das ações, é isso que acontece”, lamenta.


Segundo ele, a naturalização da doença causa prejuízos ainda maiores. “O impacto da dengue sobre a população brasileira hoje é incomparável ao coronavírus, por exemplo. Todavia, as pessoas se preocupam mais com o coronavírus. Esse comportamento evidencia o nosso estigma colonialista e atrasado porque esse tipo de doença ameaça países centrais e áreas estratégicas do poder econômico e mundial. Por aqui, você tem problemas com a dengue desde 1994, ano da primeira epidemia registrada no Brasil. Depois houve uma grande epidemia em 2002. Só em 2015, foram registrados mais de 1,5 milhão de casos no país.”


Aedes: o mosquito oportunista

Como o Aedes se tornou um novo 'bicho de estimação'
Infográfico
 


“Se você eliminar o principal criadouro do Aedes aegypti, ele sempre vai achar outro local para colocar os ovos. É um mosquito super adaptável. Eliminar só um criadouro dá a falsa sensação de que você está seguro”, alerta a bióloga Denise Valle, pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).


Estrategicamente, a fêmea espalha ovos do mosquito em diferentes lugares para garantir o sucesso das larvas. “A cada quatro dias, a fêmea colhe sangue por meio das picadas. Ela não precisa desse sangue para viver, só precisa para fazer os ovos. Com esse sangue, ela produz em torno de 100 ovos e sai colocando um pouco em cada lugar. Os outros mosquitos não fazem isso. Essa estratégia do Aedes é muito eficiente, nesse sentido. Ela garante a propagação da prole”, explica.


Diferente de outros mosquitos, os ovos conseguem se manter secos por até 1 ano. A larva fica pronta dentro do ovo e aguarda o próximo contato com a água limpa ou suja. Assim que houver umidade, a larva continua o ciclo evolutivo. O período entre a eclosão do ovo e a fase adulta do mosquito demora, em média, de sete a dez dias.


“A fêmea só vai voar para longe se ela precisar. Quanto mais pessoas ela picar ao redor e quanto mais lugares ela tiver à disposição para colocar os ovos por perto, menos ela vai voar e mais ela vai viver”, afirma a bióloga. O mosquito adulto vive, em média, 30 dias.


Mesmo com hábitos diurnos, nada impede que as picadas ocorram também durante a noite. “Se o mosquito está na sua casa e você trabalha o dia inteiro e só chega à noite, ele vai te picar à noite, sem problemas. É um mosquito muito oportunista”, frisa.


A facilidade em se adaptar ao meio exige atenção redobrada durante as ações de combate. “Em São Paulo, por exemplo, teve um ano que os principais recipientes com dengue eram pratos de vasos de plantas. Depois de um período de super estiagem, os recipientes identificados com focos do mosquito eram os que serviam para o armazenamento de água.”






Invernos mais quentes reacendem alerta


As temperaturas médias registradas no Paraná entre março e setembro sofreram alterações nos últimos anos, segundo o doutor em clima e planejamento urbano Francisco Mendonça. O professor pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da universidade é um dos coordenadores do Sistema de Alerta para o Controle de Epidemia de Dengue no Paraná.


“O planeta tende ao aquecimento. No caso do Paraná, já há uma alteração de, aproximadamente, 1,5°C nas temperaturas médias desde o final do século XX. No inverno e no outono, não faz mais as mesmas temperaturas baixas como se fazia nos invernos de 30 ou 50 anos atrás. No inverno, há um aumento de 1,5°C a 2°C nas temperaturas médias. Não diria que vai haver uma ausência de inverno, mas as temperaturas elevadas facilitam enormemente doenças como a dengue”, destaca.


O sistema de alerta foi lançado em 2010 após uma série de pesquisas desenvolvidas na universidade. O grupo identificou a necessidade de analisar a chamada ecologia do Aedes aegypti para verificar as condições ideais para a proliferação do vetor considerando aspectos ambientais e condições sociais da população.


“Em resumo, o mosquito precisa de calor, umidade, vento. O alto risco para a proliferação da dengue é quando você tem temperaturas médias entre 20°C e 30°C, associadas a chuvas intermitentes, numa duração de duas a três semanas”, detalha.


As condições climáticas são analisadas semanalmente. Conforme o professor, o Norte do Estado apresenta as mesmas condições em comparação ao Oeste de Santa Catarina e ao Noroeste do Rio Grande do Sul com temperaturas médias mensais acima dos 15°C ou 20°C e chuvas intermitentes ou intensas. O pico das epidemias de dengue no Paraná, segundo ele, costuma ocorrer entre março e abril.


‘ A gente ainda faz o combate como há dois séculos atrás'

Como o Aedes se tornou um novo 'bicho de estimação'
 


A enfermeira Sônia Fernandes, mestre em Saúde Coletiva na área de Epidemiologia e Doenças Transmitidas por Vetores, atua na Secretaria de Saúde de Londrina há 30 anos. Pelo menos dez deles foram dedicados ao combate à dengue.

Para a profissional, sem avanços tecnológicos e com poucos investimentos em pesquisas para aprimorar as ações de combate à doença, o vetor se prolifera de forma desmedida.

“A mesma forma de combate não resolve. Fiquei dez anos fora do setor de combate à dengue, voltei e não mudou absolutamente nada. Continua tudo do mesmo jeito. Os mesmos relatórios, as mesmas formas de fazer as coisas, tudo exatamente igual. Nesse mesmo tempo, o Aedes foi adaptando várias características e a gente ainda faz o combate como há dois séculos atrás”, lamenta.

Desde 2000, a cidade enfrenta repetidas epidemias da doença. Entre janeiro de 2010 e fevereiro deste ano, foram confirmados mais de 25 mil casos de dengue. Nesse período, 19 pessoas morreram. O sorotipo 2 da dengue que não circulava em Londrina desde 2010 voltou a ser diagnosticado no ano passado. Conforme Fernandes, dos quatro sorotipos existentes da dengue, apenas o sorotipo 3 não estava em circulação no final de 2019. Em 2020, foram identificados apenas casos do sorotipo 2.

“Para a grande maioria das doenças existentes hoje, a gente precisa é de uma mudança de comportamento. No caso da dengue, acredito também na descoberta de alguma outra tecnologia para controle do vetor. Mas, para isso, a gente precisa ter um investimento tanto dos governos municipais quanto dos estaduais em pesquisa, muito mais do que está sendo feito hoje. E mudar um pouco os parâmetros, dar mais liberdade para que os municípios trabalhem de forma diferente. Hoje ficar só cobrando visitas casa a casa… Isso é um programa que já se revelou incapaz de resolver essa situação”, critica.

Na última quarta-feira, a cidade atingiu a proporção de 291 casos confirmados para cada 100 mil habitantes. O índice em que é constatada a epidemia é de 300 casos confirmados para cada 100 mil habitantes. O número de casos suspeitos já ultrapassa essa diferença. “A tendência no futuro é o cenário se complicar. Infelizmente, situações como essa que nós estamos vivendo hoje no município podem se tornar quase que usuais.”


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