Ano novo, vida nova. O dia 31 de dezembro marcou o fim de mais um ciclo no calendário gregoriano, baseado no ano solar e com contagem a partir do nascimento de Cristo. O brinde à meia-noite, seguido por abraços entre familiares e amigos, muitas vezes é precedido de um balanço interno do que foi almejado exatamente um ano antes, além do que de fato foi conquistado nos últimos 12 meses. Quando se olha para o ano que passou, é importante deixar as possíveis frustrações e o “e se?” de lado, focando em planos para o ano que se inicia e maneiras concretas de tirá-los do papel.

A recomendação foi seguida por Julia Cardoso, 23, estudante de direito e estagiária no ramo em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina), onde vive com a mãe e a irmã mais nova. Como resolução para 2025, ela decidiu focar ainda mais nos treinos que realiza na academia há três anos, com o objetivo de subir ao palco pela primeira vez em uma competição de fisiculturismo. Não somente dito e feito, a jovem ainda levou troféus para casa.

Dar 100% para a competição

Primeiramente, a musculação era motivada por ganho de massa muscular, com Cardoso se cobrando constantemente por ter dificuldades para comer. Ela recordou que seguir a dieta à risca foi o seu maior desafio, principalmente se tratando da preparação para campeonatos. “Cada grama de alimento é calculado, então você não pode sair da dieta. É muito difícil, porque a gente não percebe isso quando nunca competiu, nunca seguiu uma dieta muito restrita, mas sempre que você vai ter uma vida social envolve comida, então você fica muito isolada nesse sentido, é um esporte muito solitário”, contou a estudante.

Ter um acompanhamento multidisciplinar e especializado, com nutricionista e personal trainer, além do apoio da mãe, foi essencial para Julia manter a constância dos treinos e não desistir. Com o primeiro campeonato se aproximando em agosto, a dieta ficou mais restrita, os exercícios cardiovasculares mais frequentes e os treinos mais intensos. “É muito cansativo, porque você come pouco, então não tem energia para muita coisa. Foi muito difícil conciliar com o restante da vida, com trabalho e faculdade. Eu me cobrava porque eu via que não estava dando meu 100%, porque eu estava dando 100% para a competição”, relembrou a jovem.

Sensação de ‘quero mais’

O trabalho duro valeu a pena quando a atleta subiu ao pódio já em seu primeiro campeonato, alcançando o 2º lugar na Copa Norte IFBB na categoria Bikini Junior - até 23 anos -, em Apucarana (Centro-Norte). Em outubro, competiu no Londrina Open Classic e levou ouro tanto na modalidade Junior, quanto na Sênior e na categoria Overall Women’s Bikini, recebendo o título de campeã absoluta - vencedoras de cada divisão se enfrentaram para decidir quem era a atleta mais completa.

“A sensação de subir ao palco pela primeira vez é indescritível. Eu estava muito nervosa, mas quando você sobe fica tudo escuro e só enxerga os jurados. É muito gratificante saber que você deu o seu 100% e ver a recompensa do trabalho”, disse Cardoso. Reforçando que é contra dietas restritivas, “quando você não pode comer nada”, disse que o “caminho” é manter uma alimentação balanceada, praticar uma atividade física agradável e cultivar uma rede de apoio, começando aos poucos e sem criar metas “inalcançáveis”.

Considerou ainda que o treino deve ser uma forma de lazer, em que o praticante desliga o cérebro das obrigações e usa o momento para “fazer alguma coisa pelo seu corpo”. “Você está ali no dia a dia e se cobra tanto, é trabalho, faculdade e conta pra pagar, o treino tem que ser para espairecer, é o que me faz manter a constância hoje em dia”, pontuou a atleta.

O que 2026 trará

Como resolução de Ano Novo, Julia objetiva maior planejamento em suas atividades, para não deixar os deveres para trás. “Como foi tudo muito no susto, eu tive que deixar partes da minha vida de lado e agora estou tentando recuperar. Meu principal objetivo é alinhar a faculdade com os treinos e com competição, principalmente porque em 2026 vou fazer a prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), tenho que entregar o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e quero competir em julho no Paranaense”, almejou.

Overdose emocional

Para os que traçaram um planejamento para o ano que terminou e não conseguiram cumpri-lo, é essencial não se deixar abalar pela “overdose emocional” que as festas de fim de ano causam. A dica é de Sylvio Schreiner, psicanalista clínico e professor de psicanálise, que brinca que o Natal e Ano Novo deviam ter pelo menos seis meses os separando.

“Temos todo aquele massacre de comerciais dizendo que você tem que estar muito feliz, com famílias que não se encontram o ano inteiro, e no Natal se encontram. Traz um massacre no sentido de uma obrigação, de quem eu acho, ou de quem acham que eu tenho que vir a ser. Muitas pessoas vivem isso de uma maneira amorosa e tranquila, mas algumas se cobram demais”, considerou o profissional.

Uma semana depois chega o último dia do ano, e com ele, a sensação de obrigação em falar “quem eu vou ser e quais serão as minhas metas”. “Às vezes, vamos falando coisas que não estão em consonância, de fato, com o que queremos na própria vida. É muito mais fácil se enganar, querer representar um papel nessa época. Colocamos uma expectativa e idealização tão grandes, que não se valoriza aquilo que a gente realmente conquistou, que parece pequeno, mas vai sustentando a vida”, pontuou Schreiner.

Sylvio Schreiner recomenda que as pessoas valorizem o que conquistaram em 2025 e criem condições para concretizar planos futuros
Sylvio Schreiner recomenda que as pessoas valorizem o que conquistaram em 2025 e criem condições para concretizar planos futuros | Foto: Heloísa Gonçalves

Aproveitar o ‘aqui e agora’

O psicanalista ressaltou que, apesar do simbolismo das confraternizações universais, elas são nada mais do que um ponto no calendário de 365 dias. “A gente vive o ano inteiro, é no dia a dia que vamos construindo, expandindo, nos desdobrando. Não é questão de completar algo em um ano, mas a possibilidade de descobrir em nós novas dimensões de uma maneira que possamos ir aproveitando tudo isso”.

Schreiner recomenda, sim, o almejar de planos nesta época, mas sugeriu que o termo “metas” seja deixado para as empresas. A palavra mais adequada é “sonhos”. “Se você quer plantar um jardim, tem que preparar o terreno, irrigar e ver qual planta precisa de mais água, não basta só querer ter o jardim. Que a gente crie as condições para que venhamos, cada vez mais, a se preparar para aquilo que de fato desejamos”.

Citando a importância de priorizar a saúde mental durante esta preparação, o profissional considerou que fazer planos é simples, difícil é se manter dedicado a eles. Ele recomendou o esforço em realmente se conhecer, para que seja mais fácil distinguir se “eu estou levando a vida que eu quero e preciso, ou se estou apenas achando que se eu fizer isso, fizer aquilo, vou estar completo”.

Nova vida saudável

Entre resoluções de fim de ano mais comuns, muitas das promessas abarcam a saúde física: se exercitar, comer melhor, adotar um novo esporte como hobby. No Brasil, observa-se uma alta taxa de evasão após os primeiros três meses da prática, que é impulsionada ou desmotivada a depender do ambiente em que a pessoa se encontra, políticas públicas e resultados alcançados.

A análise é de Hélio Serassuelo, professor do curso de educação física da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e chefe do Departamento de Ciências do Esporte. No âmbito do GEAPS (Grupo de Estudos em Atividade Física, Psicologia e Saúde), coordena pesquisas que envolvem o exercício físico e a saúde mental, reforçando a importância de ter os dois como aliados.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a prática regular de atividades por pelo menos 150 minutos semanais, com o professor salientando que “o ideal é manter isso durante o ano todo”. “Eu não preciso me matar de fazer exercício físico, mas se eu fizer pelo menos 30 minutos por dia de caminhada, de bicicleta, e aliar isso a um trabalho de força com carga resistida, já vai trazer grandes benefícios”.

Dentre eles, Serassuelo elencou a melhoria da força e flexibilidade, maior resistência aeróbica e cardiorrespiratória e diminuição do colesterol e da glicose. Ressaltou ainda o valor de ter um educador físico guiando a jornada, que crie estratégias de exercícios com base nas necessidades e objetivos do aluno.

Na UEL, Hélio Serassuelo orienta pesquisas que trazem a saúde mental e atividade física como aliadas
Na UEL, Hélio Serassuelo orienta pesquisas que trazem a saúde mental e atividade física como aliadas | Foto: Heloísa Gonçalves

Orientação para evitar lesões

O professor recordou que a ascensão do personal trainer se deu há cerca de 15 anos, o que elevou a prática do exercício físico. Ter um profissional capacitado para dar direcionamentos evita o principal problema do iniciante: pecar pelo excesso. “Seja corrida de rua, musculação, beach tennis, futebol, sem um tênis adequado e com uma intensidade e volume muito altos, dá lesão no tornozelo, joelho, quadril. É porque não tem o hábito, não tem uma resistência muscular, e com o tempo as articulações vão sentindo, o músculo não consegue se sustentar. Com auxílio de alguém qualificado, pode melhorar o organismo para receber aquele estímulo”, aconselhou.

A avaliação física é o ponto inicial, com os primeiros resultados alcançados após semanas de dedicação catapultando a constância. Caso a pessoa não se identifique com a musculação, Serassuelo recomendou encontrar um grupo de pessoas que pratique um esporte de interesse. “Isso é importante para a sua vida, para se manter em saúde, mas faça alguma coisa que te dê prazer. É importante gostar, porque senão a pessoa não rende e deixa de lado”, completou.

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