Como as crianças entram para o crime
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Agência Estado 
F. G. é um garoto franzino e tímido, de 14 anos, dono de uma vida repleta de delitos. Órfão de pai - morto num acidente de trem em 1991 -, F. sustentava a mãe e os quatro irmãos com a venda de doces em Rocha Miranda, zona norte do Rio. Ganhava R$ 40,00 por semana e almoçava bananadas e doces de leite. O dinheiro, escasso, era gasto na compra de alimentos. Aos 12 anos, F. foi convidado para um negócio mais rentoso e que entendeu ser atraente. Traficantes do Morro do Faz Quem Quer, em Rocha Miranda, ofereceram a ele a oportunidade de triplicar sua renda mensal.
Outros colegas do morro o incentivaram a vender cocaína e maconha para os consumidores que vinham do asfalto. Não contou nada à mãe e logo no primeiro mês de trabalho conseguiu arrecadar R$ 500,00. Íntimo dos líderes da boca-de-fumo do Faz Quem Quer, F. carregava drogas em sua mochila e as negociava na frente de clubes dos bairros de Madureira e Irajá, na zona norte. Ele já estava sendo cotado para assumir a gerência do tráfico no local. Mas teve sua carreira interrompida por policiais militares em março.
F. está num dos abrigos da prefeitura do Rio e recebe acompanhamento de educadores e psicólogos. À polícia, confessou ter praticado vários roubos de automóveis e furtos de toca-fitas, além de ter participado de dois assaltos: a uma padaria e a uma papelaria em Madureira. O garoto deixou a escola aos 8 anos, antes de completar a primeira série. Na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ele contou ainda que seu sonho era jogar pelo Flamengo.
Seus quatro irmãos, que têm entre 7 e 11 anos, também trabalham com a venda de doces em Rocha Miranda. Dois deles já não estudam mais. (Sílvio Barsetti)


