Como a bomba atômica transformou a cultura japonesa
"Godzilla" é, sem dúvida, a criação mais famosa que reflete a complexa relação entre o Japão e a energia nuclear
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sábado, 09 de agosto de 2025
"Godzilla" é, sem dúvida, a criação mais famosa que reflete a complexa relação entre o Japão e a energia nuclear
Kyoko Hasegawa Agência France Presse 

Tóquio, Japão - As bombas nucleares que atingiram Hiroshima e Nagasaki influenciaram profundamente e durante décadas a cultura japonesa, inspirando desde Godzilla até as histórias dos mangás.
O título em japonês do mangá "Astro Boy" é traduzido como "Átomo poderoso", enquanto outros animes famosos "Akira", "Neon Genesis Evangelion" e "Ataque dos Titãs" mostram explosões em larga escala.
"Passar por um sofrimento extremo" e exorcizar um trauma é um tema recorrente na produção cultural japonesa, e isto fascina o público mundial", comenta William Tsutsui, professor de História na Universidade de Ottawa.
As bombas atômicas lançadas em agosto de 1945 deixaram quase 140 mil mortos em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as histórias de destruição e mutações foram associadas ao temor das ocorrências de desastres naturais e, após 2011, ao acidente nuclar em Fukushima.
Embora alguns poemas "descrevam o puro terror causado pela bomba atômica no momento em que foi lançada", muitas obras abordam o tema de forma indireta, segundo a escritora Yoko Tawada.
Em seu livro "O Emissário", publicado no Japão em 2014, o autor se concentra nas consequências de uma grande catástrofe, inspirando-se nas semelhanças entre as bombas atômicas, Fukushima e a "doença de Minamata", um envenenamento por mercúrio devido à poluição industrial no sudoeste japonês desde a década de 1950.
“Não se trata tanto de um aviso, mas de uma mensagem para dizer: as coisas podem piorar, mas encontraremos uma maneira de sobreviver”, explica Tawada.
DAR ROSTO A 'MEDOS ABSTRATOS'
"Godzilla" é, sem dúvida, a criação mais famosa que reflete a complexa relação entre o Japão e a energia nuclear: uma criatura pré-histórica despertada por testes atômicos americanos no Pacífico.
"Precisamos de monstros para dar forma e rosto a medos abstratos", diz Tsutsui, autor do livro "Godzilla on My Mind".
"Na década de 1950, Godzilla cumpriu esse papel para os japoneses, com a energia atômica, com as radiações, com as lembranças das bombas atômicas", completou.
Essa criatura fictícia aparece destruindo Tóquio no filme original de 1954. O tema nuclear está presente em quase 40 filmes sobre Godzilla, mas muitas vezes não se destaca nas tramas.
“O público americano não se interessou muito por filmes japoneses que refletiam a dor e o sofrimento da guerra e que, de certa forma, faziam referência negativa aos Estados Unidos e ao uso de bombas atômicas”, segundo Tsutsui.
'CHUVA NEGRA'
"Chuva Negra", romance de Masuji Ibuse de 1965 sobre a doença e a discriminação causada pela radiação, é um dos relatos mais conhecidos sobre o bombardeio de Hiroshima.
Ibuse não era um sobrevivente, o que alimenta um "grande debate sobre quem tem legitimidade para escrever este tipo de histórias", explica Victoria Young, da Universidade de Cambridge.
Kenzaburo Oe, escritor e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1994, compilou testemunhos de sobreviventes no "Notas de Hiroshima", uma coleção de ensaios escritos na década de 1960.
O autor optou pelo gênero documental, observa Yoko Tawada. “Ele enfrentou a realidade, mas tenta abordá-la de um ângulo pessoal”, incluindo a relação com seu filho deficiente, acrescenta.
Para esta escritora, que viveu na Alemanha por 40 anos, depois de crescer no Japão, a "educação antimilitarista" que recebeu por vezes a levava a pensar que apenas o Japão foi "uma vítima" durante a Segunda Guerra Mundial.
“No que diz respeito aos bombardeios, o Japão foi uma vítima, sem dúvidas, mas é importante ter uma visão global” e considerar as atrocidades que também cometeu.
Quando criança, as ilustrações dos bombardeios atômicos nos livros a lembravam das exceções do inferno na arte clássica japonesa.
“Isso me levou a questionar se a civilização humana não era, em si mesma, uma fonte de perigos”, ressalta. Desta perspectiva, as armas atômicas não seriam tanto “um avanço tecnológico, mas algo que assombra o coração da humanidade”, completou.


