Rio, 21 (AE) - A Imperatriz Leopoldinense promete uma ópera na comissão de frente, a Grande Rio vai de Comedia dellArte, a Mangueira faz mistério e a Viradouro, de Joãosinho Trinta, terá anjos góticos anunciando o Brasil a ser descoberto. Mas não faltarão índios, soldados e portugueses nas comissões que abrirão os desfiles das 14 escolas do Grupo Especial, nos dias 5 e 6.
A Porto da Pedra tem a difícil tarefa de abrir o carnaval, no domingo, com o enredo "Ordem, Progresso, Amor e Folia no Milênio da Fantasia", sobre a Proclamação da República. A comissão de 13 rapazes criada pelo coreógrafo uruguaio Oswald Berri, que trabalha há 15 anos com a apresentadora Xuxa, formará caleidoscópios na avenida. "Serão os espíritos guerreiros que inspiraram a República, misto de índio, soldado e negro", conta.
O primeiro bailarino do Teatro Municipal do Rio, Marcelo Misaidilis, é responsável pela comissão de frente da Unidos da Tijuca há quatro anos. No desfile do enredo "Terra dos Papagaios... Navegar foi Preciso", sobre a fase inicial da história do País, ele encenará o primeiro contato entre índios e portugueses. "Quero mostrar o suspense, o conflito e o encantamento entre duas culturas tão diferentes", diz. "Para isso, a melhor linguagem é a dança".
A Imperatriz, que criou o enredo "Quem Descobriu o Brasil foi seu Cabral, no Dia 22 de Abril, Dois Meses Depois do Carnaval", sobre a descoberta do País, terá 15 homens na abertura do desfile. "Será como uma ópera em cinco atos, significando os estados de espírito que dominavam os navegantes, como medo, esperança...", explica o coreógrafo Fábio Mello. Marcha - Diretora do Teatro Guaíra, Suzana Braga é a coreógrafa da União da Ilha. Como o enredo "Para Não Dizer que Não Falei de Flores" é sobre a ditadura, ela recorrerá a 15 soldados marchando, sátira ao autoritarismo. "Não será difícil misturar marcha e samba: ambos têm compassos binários".
A coreógrafa Carlota Portela estréia no carnaval na comissão do Salgueiro. No enredo "Sou Rei, Sou Salgueiro, Meu Reinado é Brasileiro", sobre a passagem de d. João VI pelo Rio, 15 homens vão contar os antecedentes da viagem. "Eles encenarão a dor de quem ficou em Portugal após a invasão de Napoleão", conta o responsável pela ala, Zeca Taveira. "Não dançarão samba
mas passos da época".
A Viradouro será outra escola que contará na abertura do desfile os antecedentes do enredo, "Visões de Paraísos e Infernos". Baseado na obra de Sérgio Buarque de Holanda, ele trata da expectativa dos portugueses sobre o que encontrariam no Brasil. Catorze anjos góticos, estilo do período anterior à era dos descobrimentos, vão anunciar a boa nova. "Serão sete negros vestidos de branco e prata e sete brancos com fantasias em branco, vermelho e dourado, cores da Viradouro", revela o chefe da ala, Edmilson Lima. A Mangueira, que emocionou o público no ano passado levando à passarela sósias, com máscaras, dos maiores compositores brasileiros, homenageia "Rei Obá II, Rei dos Esfarrapados, Príncipe do Povo". Ele chegou ao Brasil como escravo, mas, rei na áfrica, comprou sua alforria e era recebido por D. Pedro II.
O professor de dança Carlinhos de Jesus faz segredo, mas sabe-se que ele ensaia cinco mulheres e dez homens com figurinos de Luiz de Freitas e maquiagem de Vavá Torres, o criador das máscaras do ano passado. "Precisamos contar quem é ele, o público não o conhece", diz Carlinhos. "Tive de pesquisar danças e roupas da época".
JK - A Caprichosos de Pilares usará guerreiros para falar de um passado recente, no enredo "Brasil, Teu Espírito é Santo", que aborda a arte e a situação social do governo Juscelino Kubitschek ao governo Collor. Quinze homens da comunidade usarão espadas e escudos para formar figuras.
A Mocidade Independente de Padre Miguel leva de novo ao sambódromo o grupo Intrépida Trupe. A comissão será abstrata, já que o enredo, "Verde, Amarelo, Azul-anil Colorem o Brasil no Ano 2000", trata da bandeira nacional. A Unidos da Vila usará índios para apresentar o enredo "Eu Sou Índio, Eu Também Sou Imortal". A bailarina Renata Monmier, que estréia na função, também vai empregar escudos para formar desenhos, em três coreografias alternadas.
Na Portela, pássaros anunciarão a Era Vargas, no enredo "Trabalhadores do Brasil - a Época de Getúlio Vargas". O coreógrafo Jorge Silva promete usar a experiência acumulada em mais de 20 anos de shows de mulatas na noite carioca. A experiência de showbiz servirá também para as coreógrafas Regina Sauer e Beth Oliosi, da Grande Rio, únicas a usar só bailarinos profissionais.
O tema do desfile, "Carnaval à Vista", é a história da folia, apresentada por 15 bailarinos, na pele dos três principais personagens da Comedia dellArte. "Eles farão trejeitos característicos, a melancolia do Pierrot, a gaiatice do Arlequim e o dengo da Colombina", conta Regina.
A comissão da Beija-Flor será a única só com mulheres. "Todas são da comunidade, elas fazem com mais amor", diz a bailarina Gislaine Cavalcanti. Com experiência em shows de Walt Disney, ela recorreu a ninfas para apresentar o enredo "Brasil, Um Coração que Pulsa Forte. Pátria de Todos ou Terra de Ninguém", sobre o País no imaginário dos europeus.

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