Curitiba - Uma comissão constituída por representantes da Ouvidoria Agrária Nacional, do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná e do governo do Estado irá hoje até a área da Fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros a leste de Cascavel), que foi ocupada por cerca de 1,5 mil famílias de trabalhadores rurais sem-terra no último sábado. A intenção é negociar a relocação das famílias para uma outra parte da fazenda para diminuir o clima de tensão entre os sem-terra e os funcionários da Araupel.
Segundo informações da Polícia Militar (PM), são cerca de 4 mil pessoas que tomaram o controle do Núcleo Agrícola da Araupel, onde é feito cultivo de grãos, e estariam próximas ao Núcleo Industrial, onde a empresa mantém a produção de papel, celulose e madeira. A direção da Araupel conseguiu mandado de reintegração de posse no início da noite de segunda-feira.
A visita à fazenda foi decidida, ontem, durante reunião na Secretaria de Estado da Segurança Pública. De acordo com a ouvidora-adjunta da Ouvidoria Agrária Nacional, Maria de Oliveira, o procurador-geral do Incra em Brasília, Carlos Frederico Marés, sinalizou com a possibilidade de o governo federal usar parte dos R$ 162 milhões (verba não contingenciada) para a compra de terras, em caráter emergencial, para assentar essas famílias, que poderá ser dentro da própria fazenda. Cerca de 26 mil hectares da Araupel já foram desapropriados.
O governo federal deve priorizar o repasse de recursos extras para o Paraná e para Pernambuco, onde o clima no campo também é tenso, informou Maria de Oliveira. ''Não temos dinheiro carimbado para uma ou outra área. Onde vierem as emergências, elas serão tratadas como emergência e a Araupel é uma delas'', afirmou.
Uma das alternativas para ''diminuir os ânimos que estão bastante acirrados'' na fazenda, segundo Maria de Oliveira, seria levar os sem-terra da área ocupada agora para uma área chamada de Bacia, onde já existe um acampamento resultante de uma invasão ocorrida em 1999. Segundo o Incra, cerca de 2 mil famílias vivem nessa área. O não cumprimento da reintegração de posse dessa área resultou na determinação de intervenção federal pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no início do mês.
O superintendente do Incra no Paraná, Celso Lisboa de Lacerda, entende que se a empresa aceitar a relocação da famílias para o acampamento da Bacia, estará desistindo do pedido de intervenção.
O orçamento do Paraná para a reforma agrária é de R$ 15 milhões. Lacerda calcula que para criar assentamentos provisórios para atender a demanda de 5 mil a 7 mil famílias de sem-terra que estão acampadas em condições precárias seriam necessários cerca de mais R$ 65 milhões. Segundo ele, Decreto nº 433, do governo federal, que regula a compra de terras pelo Incra, agiliza o processo de aquisição de áreas para assentamentos provisórios, uma vez que o processo de desapropriação leva, no mínimo, oito meses. A maior dificuldade, alegou Lacerda, é obter ofertas de terra.
O procurador-geral do Estado, Sérgio Botto de Lacerda, que fará parte da comissão que irá a Quedas do Iguaçu, disse que o papel do governo será o de garantir o funcionamento da empresa e que cabe ao Incra apontar áreas para relocar as famílias. Ontem, segundo ele, 300 policiais militares estavam na Araupel, fazendo operações de desarmamento próximos dos silos e do Núcleo Industrial.

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