Terminou em impasse, ontem, a reunião que deveria marcar a retomada de diálogo entre o Movimento dos Sem Terra (MST) e o governo, após a recente ocupação, pelos sem-terra, da frente da Fazenda Córrego da Ponte, de propriedade dos filhos do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG). A comissão de negociação, formada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), decidiu pedir audiência a Fernando Henrique, na tentativa de solucionar diretamente com o presidente a pauta de reivindicações, cujo ponto principal é a liberação de crédito de custeio para o plantio.
‘‘Os mediadores foram precipitados’’, criticou o ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, que não participou do encontro, condenando a interrupção quando apenas um dos sete pontos em pauta tinha sido concluído - a meta de assentar 100 mil famílias até o fim do ano. Jungmann destacou que havia uma proposta em discussão para facilitar o pagamento dos empréstimos.
Em relação ao pedido de audiência com FHC, ele deixou claro que não há diferença entre a postura do ministério e a de Fernando Henrique. ‘‘Os ministros agem em absoluta consonância com o presidente.’’ ‘‘Não houve possibilidade de viabilizar o acordo’’, lamentou o presidente da CNBB, dom Jayme Chemello, atribuindo o fracasso do encontro à falta de autonomia do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Orlando Muniz, e do secretário de Agricultura Familiar, Nelson Borges. ‘‘Eles só podiam falar aquilo que já estava resolvido lá fora.’’
O presidente nacional da OAB, Reginaldo de Castro, também não poupou críticas ao governo, que teria conduzido a negociação com ‘‘arrogância’’ e de forma ‘‘absolutamente intransigente’’.
O MST optou pelo silêncio ao deixar a reunião. Segundo o coordenador nacional Gilberto Portes, o movimento vai aguardar o resultado da audiência da CNBB com Fernando Henrique. Para o coordenador nacional Lucídio Ravanello, o ‘‘MST estava disposto a ceder, mas o governo foi intransigente’’. À tarde estava prevista uma reunião do movimento com representantes do Incra para tratar de assuntos relativos ao Distrito Federal, Goiás e Minas.
Antes da reunião, o MST reivindicava a liberação de crédito extra de R$ 2 mil por família assentada, dentro da linha A do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que dá desconto de 40% sobre o empréstimo e cobra juro de 1,15% ao ano. O governo aceitava atender os assentados apenas com a linha C, cujo desconto é de R$ 200,00 e os juros de 4%.
Durante o encontro, o MST aceitou reduzir para R$ 1 mil o valor do crédito extra, mas o governo não topou. A seguir, técnicos dos dois lados acertaram o encaminhamento de nova fórmula, que reduziria de 4% para 2%, a título de bônus, os juros aos adimplentes na linha C. Mas, segundo o governo, o MST recuou e voltou à posição de reivindicar atendimento apenas pela linha A.

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