Curitiba - Um retorno ao passado. Este foi o sentimento de um grupo de ex-presos políticos que visitou ontem a antiga Penitenciária do Ahú, em Curitiba. Durante a ditadura militar, eles passaram por momentos de privação e tortura e exclusão nessa carceragem. O reencontro com a história ocorreu durante a inauguração de um dos marcos ''Caminhos da Resistência'', que representam locais da capital onde ocorreram manifestações populares contra a opressão e a censura.
Este foi o primeiro ato da 63 Caravana da Anistia, que chegou ontem a Curitiba e hoje realiza o julgamento de 42 processos sobre violações de direitos humanos cometidos no Paraná entre 1964 e 1985. A Comissão de Anistia vai apurar a responsabilidade do Estado brasileiro nesses casos.
Para a jornalista Elizabeth Franco Fortes, de 67 anos, que é de Curitiba, o retorno ao local onde ficou um ano e meio presa causou um misto de emoções. Ela era estudante de Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) quando foi detida em Ibiúna, no interior paulista, durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968.
Liberada em seguida, voltou a se reunir com o movimento estudantil no bairro Boqueirão, na capital, onde, com 16 companheiros, foi novamente detida. ''Corri assustada quando vi os militares, e só parei quando um deles gritou que iria atirar. No julgamento ficou claro que algumas pessoas já tinham sido escolhidas para irem para o presídio. Eles escolheram aquelas que, entre mais de 100, tinham uma atuação forte nas universidades. Foi um período complicado. Minha irmã, que na época tinha 18 anos, foi torturada mesmo sem ter ligação com qualquer movimento, apenas por ter parentesco comigo. Era algo terrível'', salientou.
O professor e economista Dacio Villar, de 68 anos, vive hoje em Londrina, e recorda que só conseguiu retornar à cidade quando foi aprovada a Lei da Anistia, em 1979. Natural de Mandaguari (Região Metropolitana de Maringá), ele e a família se mudaram para Londrina quando ainda era pequeno. Fez parte do Grêmio Estudantil do Colégio Londrinense, quando conheceu integrantes da UNE e da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (Upes) e se engajou nos movimentos estudantis.
Já cursando Química na PUC em Curitiba, foi preso em Ibiúna (SP) e também na na Chácara do Alemão, na capital paranaense. ''Minha pena a princípio era de quatro anos, mas acabou sendo reduzida. Quando sai daqui, não tinha a noção de como seria difícil recomeçar minha vida. Retornei para Londrina e, por pressão das autoridades, não fui acolhido pela minha própria família'', relatou.
Depois de passar por São Paulo, Belo Horizonte e Salvador, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde conheceu a mulher. ''Acabei passando por todos esses lugares porque, mesmo saindo da prisão, os militares tinham uma lista de busca. Então nunca parava em lugar nenhum, trabalhava informalmente, escondendo o meu passado. Era doloroso.''
Ontem, o retorno ao local onde ficou preso trouxe de volta à memória velhas emoções. ''Acho que a própria reforma ou demolição de algumas coisas tiram o pouco da história que vivemos aqui. O que mais me lembro é da convivência entre esse grupo de várias vertentes do movimento estudantil, alguns ligados até a partidos políticos. Conseguimos conviver durante um período de extrema violência e criamos amizades muito fortes'', completou Villar.
Seju
Os órgãos envolvidos nos eventos são a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, o Fórum Verdade da UFPR e Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça, além da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Paraná (Seju).
De acordo com a secretária de Justiça, Maria Tereza Uille Gomes, o trabalho da Comissão da Anistia é ''extremamente importante para que um capítulo sombrio da história do País não seja esquecido''. ''É um momento histórico, um resgate das atrocidades que aconteceram no presídio do Ahú. Por isso devemos lembrar o que essas pessoas passaram para que isso não se repita. Parte do presídio será demolido, mas uma área preservada será transformada em museu'', ressaltou.

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