Comissão Européia reconhece problemas com subsídio à agricultura
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Lourival SantAnna 
Rio, 22 (AE) - A Comissão Européia reconheceu hoje que os subsídios aos produtos agrícolas europeus são um entrave à liberalização do comércio mundial, que terá de ser removido para abrir caminho à aproximação com o Mercosul. O tema, abordado no domingo pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em vigoroso discurso de abertura do Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, dominou hoje as discussões entre representantes dos governos e empresários dos dois blocos.
Em seu painel, Martin Bangemann, membro da Comissão Européia, afirmou que o organismo sabe que o problema existe e que sua solução será complexa, mas terá de ser encontrada. Bangemann, mais alto representante da Comissão Européia no fórum
fez um apelo para que o setor agrícola não seja excluído das negociações empresariais que se seguirão aoencontro.
A exclusão chegou a ser cogitada. O discurso de Fernando Henrique deixou claro, no entanto, que é impossível a aproximação, com vistas a uma associação inter-regional, sem que o problema dos subsídios agrícolas europeus, que somam US$ 160 bilhões ao ano, seja atacado.
Não são só os sulamericanos que pensam assim. "Os empresários europeus que estão aqui são, em sua maioria, da indústria, e a grande luta deles é impedir que o lobby agrícola europeu - que tem muita força política, para um setor que emprega apenas 2% ou 3% da população - continue emperrando o comércio", disse o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia. "Essa contradição entre interesses industriais e agrícolas é um problema que a indústria européia vai ter que resolver."
Segundo Lampreia, que esteve em dezembro na Alemanha, nem o governo alemão esconde isso. "O governo alemão não aceita mais que uma parcela tão grande do orçamento da União Européia seja canalizada para subsídio agrícola", disse o chanceler brasileiro. "Há claramente agora uma oportunidade importante para fazermos progressos no sentido da remoção dos subsídios à produção e à exportação e a redução de barreiras para o acesso aos próprios mercados europeus."
Lampreia concluiu: "Pela primeira vez em mais de 40 anos, estamos entrando numa situação em que há uma perspectiva. Temos que empurrar aqui."
O português Francisco Câmara Gomes, representante da Comissão Européia, enfatiza que o tema é politicamente sensível. "Bruxelas está praticamente em estado de sítio hoje", disse ele, referindo-se às manifestações de agricultores europeus na sede da União Européia. "Mas vemos com bons olhos a rodada do milênio, e esse é naturalmente um dos temas centrais." A nova rodada da Organização Mundial do Comércio (OMC) começa em novembro, em Vancouver, no Canadá.
O Brasil responsabiliza o protecionismo europeu pela desigualdade no crescimento do comércio entre o Mercosul e a União Européia. Entre 1990 e 96, denunciou Fernando Henrique, as importações do Mercosul de produtos da UE deram um salto de 274%
enquanto as exportações cresceram apenas 25%. Mas a preocupação brasileira não se restringe a esse desequilíbrio.
Membros do governo e empresários do Brasil presentes no fórum enfatizaram a importância estratégica das relações entre o Mercosul e a União Européia, para fazer frente à influência dos Estados Unidos e fortalecer a posição dos países do Cone Sul nas negociações para a criação da área de Livre Comércio das Américas (Alca). "Não desejamos botar todos os nossos ovos na mesma cesta", declarou Lampreia.
O valor da UE como alternativa estratégica também é enfatizado por Osvaldo Moreira Douat, presidente do Conselho de Integração e vice-presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI). "O estreitamento das relações comerciais com a União Européia é importante para o fortalecimento de nossa posição no mercado", disse Douat.
Essa força suplementar advém do euro, como nova moeda mundial. A eventual integração Mercosul-UE é vista com muito mais frieza pelos argentinos. "É uma coisa para o futuro", disse o presidente da União Industrial Argentina, Alberto Gaiani. Segundo ele, o secretário argentino de Relações Econômicas Internacionais, Jorge Campbell, "deixou muito claro que é mais importante terminar a engrenagem do Mercosul do que aproximar-se de outras regiões, como União Européia, Alca e Nafta(Acordo de Livre Comércio da América do Norte".


