Rio, 01 (AE) - Um item entrou à última hora na corrida agenda da Comissão Especial do Salário Mínimo no Rio: uma visita à Favela do Andaraí, na zona norte, sob o sol escaldante da hora do almoço. O pretexto era conhecer in loco as condições de vida de uma família que vivesse com um salário mínimo. Não era exatamente o caso da escolhida, a pensionista Gilma da Silva Pereira, de 62 anos - ela, dois filhos e um neto têm renda familiar de cerca de 300 reais. A ala pefelista da comissão não gostou nada de encontrar na favela a vice-governadora Benedita da Silva (PT), pré-candidata à prefeitura do Rio.
"Isso aqui virou palanque eleitoral e o trabalho da comissão fica desmoralizado", indignou-se o relator, Eduardo Paes (PFL-RJ), que ameaçou não subir o morro. Mas se juntou ao grupo, que passou cerca de cinco minutos dentro do sufocante barraco de quatro cômodos da viúva Gilma - e pelo menos outros 15 minutos sendo exaustivamente fotografado ao lado dela, com favela e criancinhas ao fundo.
A visita foi organizada pelo deputado federal Carlos Santana (PT-RJ), presidente regional do partido, que participa da comissão, mas também lidera dentro da legenda uma corrente que funciona como fiel da balança nas decisões petistas - ora pende para o lado do Refazendo, oposição ao governo Anthony Garotinho (PDT), ora para o lado da Articulação de Benedita.
Santana acionou a aliada, a vereadora Jurema Batista (PT), líder comunitária do Andaraí. A comissão, formada por oito deputados, foi surpreendida com a presença de Benedita no morro.
"Ué, o que é isso?", espantou-se a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), apesar de o partido dela apoiar o governo estadual. "É natural que a vice-governadora recepcione a comissão e ninguém pode ficar surpreso com o fato de eu subir favela", afirmou Benedita, que foi líder comunitária do Morro do Chapéu Mangueira. Ela não se abalou com as críticas de Paes. "Ele não pode negar a minha autoridade, como também não posso negar a dele", disse.
Alheia à saia-justa criada com a inesperada aparição da vice-governadora, Gilma estava satisfeita com a visita-relâmpago dos deputados. "Foi bom, né, porque, assim, pode ser que se resolva alguma coisa", disse, esperançosa. Ela e a filha deficiente visual compartilham a pensão deixada pelo marido, funcionário estadual, no valor de 160 reais. O filho, também funcionário público, ganha o salário mínimo. "A gente gasta com comida, remédio e não sobra nada", lamentou ela.